You are currently browsing the category archive for the ‘O Céu e o Inferno’ category.

Os Espíritos são criados simples e ignorantes, mas dotados de aptidões para tudo conhecerem e para progredirem, em virtude do seu livre-arbítrio. Pelo progresso adquirem novos conhecimentos, novas faculdades, novas percepções e, conseguintemente, novos gozos desconhecidos dos Espíritos inferiores; eles vêem, ouvem, sentem e compreendem o que os Espíritos atrasados não podem ver, sentir, ouvir ou compreender.

A felicidade está na razão direta do progresso realizado, de sorte que, de dois Espíritos, um pode não ser tão feliz quanto outro, unicamente por não possuir o mesmo adiantamento intelectual e moral, sem que por isso precisem estar, cada qual, em lugar distinto. Ainda que juntos, pode um estar em trevas, enquanto que tudo resplandece para o outro, tal como um cego e um vidente que se dão as mãos: este percebe a luz da qual aquele não recebe a mínima impressão.

Sendo a felicidade dos Espíritos inerente às suas qualidades, haurem-na eles em toda parte em que se encontram, seja à superfície da Terra, no meio dos encarnados, ou no Espaço.

Uma comparação vulgar fará compreender melhor esta situação. Se se encontrarem em um concerto dois homens, um, bom músico, de ouvido educado, e outro, desconhecedor da música, de sentido auditivo pouco delicado, o primeiro experimentará sensação de felicidade, enquanto o segundo permanecerá insensível, porque um compreende e percebe o que nenhuma impressão produz no outro. Assim sucede quanto a todos os gozos dos Espíritos, que estão na razão da sua sensibilidade.

O mundo espiritual tem esplendores por toda parte, harmonias e sensações que os Espíritos inferiores, submetidos à influência da matéria, não entrevêem sequer, e que somente são acessíveis aos Espíritos purificados.

O progresso nos Espíritos é o fruto do próprio trabalho; mas, como são livres, trabalham no seu adiantamento com maior ou menor atividade, com mais ou menos negligência, segundo sua vontade, acelerando ou retardando o progresso e, por conseguinte, a própria felicidade.

Enquanto uns avançam rapidamente, entorpecem-se outros, quais poltrões, nas fileiras inferiores. São eles, pois, os próprios autores da sua situação, feliz ou desgraçada, conforme esta frase do Cristo: — A cada um segundo as suas obras.

Extraído da obra “O Céu e o Inferno (ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo)”, de Allan Kardec. Versão encontrada no site Domínio Público.

***

Mais:                                                                            

**Seção Estudos (publicada às quartas-feiras)

**Para baixar “O Céu e o Inferno” gratuitamente e sem infringir leis de direitos autorais clique aqui (site Domínio Público).

**Para conhecer as Obras Básicas da Doutrina Espírita clique aqui.

**As Obras Básicas da Doutrina Espírita– download gratuito .

13. Se a religião, apropriada em começo aos conhecimentos limitados do homem, tivesse acompanhado sempre o movimento progressivo do espírito humano, não haveria incrédulos,porque está na própria natureza do homem a necessidade de crer, e ele crerá desde que se lhe dê o pábulo espiritual de harmonia com as suas necessidades intelectuais.

O homem quer saber donde veio e para onde vai. Mostrando-se-lhe um fim que não corresponde às suas aspirações nem à idéia que ele faz de Deus, tampouco aos dados positivos que lhe fornece a Ciência; impondo-se-lhe, ademais, para atingir o seu desiderato, condições cuja utilidade sua razão contesta, ele tudo rejeita; o materialismo e o panteísmo parecem-lhe mais racionais, porque com eles ao menos se raciocina e se discute, falsamente embora. E há razão, porque antes raciocinar em falso do que não raciocinar absolutamente.

Apresente-se-lhe, porém, um futuro condicionalmente lógico, digno em tudo da grandeza, da justiça e da infinita bondade de Deus, e ele repudiará o materialismo e o panteísmo, cujo vácuo sente em seu foro íntimo, e que aceitará à falta de melhor crença.

O Espiritismo dá coisa melhor; eis por que é acolhido pressurosamente por todos os atormentados da dúvida, os que não encontram nem nas crenças nem nas filosofias vulgares o que procuram. O Espiritismo tem por si a lógica do raciocínio e a sanção dos fatos, e é por isso que inutilmente o têm combatido.

14. Instintivamente tem o homem a crença no futuro, mas não possuindo até agora nenhuma base certa para defini-lo, a sua imaginação fantasiou os sistemas que originaram a diversidade de crenças. A Doutrina Espírita sobre o futuro — não sendo uma obra de imaginação mais ou menos arquitetada engenhosamente, porém o resultado da observação de fatos materiais que se desdobram hoje à nossa vista — congraçará, como já está acontecendo, as opiniões divergentes ou flutuantes e trará gradualmente, pela força das coisas, a unidade de crenças sobre esse ponto, não já baseada em simples hipótese, mas na certeza. A unificação feita relativamente à sorte futura das almas será o primeiro ponto de contacto dos diversos cultos, um passo imenso para a tolerância religiosa em primeiro lugar e, mais tarde, para a completa fusão.

Extraído da obra “O Céu e o Inferno (ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo)”, de Allan Kardec. Versão encontrada no site Domínio Público.

***

Mais:                                                                            

**Seção Estudos (publicada às quartas-feiras)

**Para baixar “O Céu e o Inferno” gratuitamente e sem infringir leis de direitos autorais clique aqui (site Domínio Público).

**Para conhecer as Obras Básicas da Doutrina Espírita clique aqui.

**As Obras Básicas da Doutrina Espírita– download gratuito .

A Doutrina Espírita transforma completamente a perspectiva do futuro. A vida futura deixa de ser uma hipótese para ser realidade. O estado das almas depois da morte não é mais um sistema, porém o resultado da observação. Ergueu- se o véu; o mundo espiritual aparece-nos na plenitude de sua realidade prática; não foram os homens que o descobriram pelo esforço de uma concepção engenhosa, são os próprios habitantes desse mundo que nos vêm descrever a sua situação; aí os vemos em todos os graus da escala espiritual, em todas as fases da felicidade e da desgraça, assistindo, enfim, a todas as peripécias da vida de além-túmulo.

Eis aí por que os espíritas encaram a morte calmamente e se revestem de serenidade nos seus últimos momentos sobre a Terra. Já não é só a esperança, mas a certeza que os conforta; sabem que a vida futura é a continuação da vida terrena em melhores condições e aguardam-na com a mesma confiança com que aguardariam o despontar do Sol após uma noite de tempestade. Os motivos dessa confiança decorrem, outrossim, dos fatos testemunhados e da concordância desses fatos com a lógica, com a justiça e bondade de Deus, correspondendo às íntimas aspirações da Humanidade.

Para os espíritas, a alma não é uma abstração; ela tem um corpo etéreo que a define ao pensamento, o que muito é para fixar as idéias sobre a sua individualidade, aptidões e percepções. A lembrança dos que nos são caros repousa sobre alguma coisa de real. Não se nos apresentam mais como chamas fugitivas que nada falam ao pensamento, porém sob uma forma concreta que antes no-los mostra como seres viventes. Além disso, em vez de perdidos nas profundezas do Espaço, estão ao redor de nós; o mundo corporal e o mundo espiritual identificam-se em perpétuas relações, assistindo-se mutuamente.

Não mais permissível sendo a dúvida sobre o futuro, desaparece o temor da morte; encara-se a sua aproximação a sangue-frio, como quem aguarda a libertação pela porta da vida e não do nada.

Extraído da obra “O Céu e o Inferno (ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo)”, de Allan Kardec. Versão encontrada no site Domínio Público.

***

Mais:

**Seção Estudos (publicada às quartas-feiras)

**Para baixar “O Céu e o Inferno” gratuitamente e sem infringir leis de direitos autorais clique aqui (site Domínio Público).

**Para conhecer as Obras Básicas da Doutrina Espírita clique aqui.

**As Obras Básicas da Doutrina Espírita– download gratuito  .

                        Posto nunca tivesse provado as cruciantes angústias da miséria, a Sra. B…, de Bordéus, teve uma vida de martírios físicos, em conseqüência de inumerável série de moléstias mais ou menos graves, a contar da idade de 5 meses. Vivendo 70 anos, quase que anualmente batia às portas do túmulo. Três vezes envenenada pela terapêutica de uma ciência experimental e duvidosa, em ensaios feitos sobre o seu organismo e temperamento, arruinada, ao demais, pelos remédios tanto quanto pela doença, assim viveu entregue a sofrimentos intoleráveis, que nada podia atenuar. Uma sua filha, espírita-cristã e médium pedia sempre a Deus para suavizar-lhe as cruéis provações. Foi porém aconselhada pelo seu guia a pedir simplesmente a fortaleza, a calma, a resignação para as suportar, fazendo acompanhar esse conselho das seguintes instruções:

                        “Nessa vida tudo tem sua razão de ser: não há um só dos vossos sofrimentos, que não corresponda aos sofrimentos por vós causados; não há um só dos vossos excessos que não tenha por conseqüência uma privação; não há uma só lágrima a destilar dos olhos, que não seja destinada a lavar uma falta, um crime qualquer.

                        “Suportai, portanto, com paciência e resignação as dores físicas e morais, por mais cruéis que elas se vos afigurem. Imaginai o trabalhador que, amortecidos os membros pela fadiga, prossegue no trabalho, porque tem diante de si a dourada espiga, outros tantos frutos da sua perseverança. Assim, a sorte do infeliz que sofre nesse mundo; a aspiração da felicidade, que deve constituir-se em fruto de sua paciência, torná-lo-á resistente às dores efêmeras da Humanidade. Eis o que se dá com tua mãe. Cada uma das suas dores acolhida como expiatória, corresponde à extinção de uma nódoa do passado; e quanto mais cedo as nódoas todas se extinguirem, tanto mais breve ela será feliz.

                        “A falta de resignação esteriliza o sofrimento, que, por isso mesmo, teria de ser recomeçado. Convém-lhe, pois, a coragem e a resignação, e o que se faz preciso é pedir a Deus e aos bons Espíritos que lha concedam. Tua mãe foi outrora um bom médico, vivendo num meio em que fácil se lhe tornava o bem-estar, e no qual lhe não faltaram dons nem homenagens. Sem ser filantrópico, e, por conseguinte, sem visar o alívio dos seus irmãos, mas cioso de glória e fortuna quis atingir o apogeu da Ciência, para aumentar a reputação e a clientela. E na consecução de tal propósito não havia consideração que o detivesse.

                        “Porque previa um estudo nas convulsões que investigava, sua mãe era martirizada no leito de sofrimentos, enquanto que o filho se submetia a experiências que deveriam explicar uns tantos fenômenos; aos velhos abreviava os dias e aos homens vigorosos enfraquecia com ensaios tendentes a comprovar a ação de tal ou qual medicamento. E todas essas experiências eram tentadas sem que o infeliz paciente delas soubesse ou sequer desconfiasse. A satisfação da cupidez e do orgulho, a sede de ouro e de renome, foram os móveis de tal conduta. Foram precisos séculos de provações terríveis para domar esse Espírito ambicioso e cheio de orgulho, até que o arrependimento iniciasse a obra de regeneração. Agora termina a reparação, visto como as provas dessa última encarnação podem dizer-se suaves relativamente às que já suportou. Coragem, pois, porque se o castigo foi longo e cruel, grande será a recompensa à resignação, à paciência, à humildade.

                        “Coragem, a todos vós que sofreis; considerai a brevidade da existência material, pensai nas alegrias eternas.

                        “Invocai a esperança, a dedicada amiga dos sofredores; a fé, sua irmã, que vos mostra o céu, onde com aquela podeis penetrar antecipadamente. Atraí também a vós esses amigos que o Senhor vos faculta, amigos que vos cercam, que vos sustentam e amam, e cuja solicitude constante vos reconduz para junto dAquele a quem haveis ofendido, transgredindo as suas leis.”

                        Depois de haver desencarnado, a Sra. B… veio dar, tanto por sua filha como na Sociedade de Paris, muitas comunicações, nas quais se refletem as qualidades mais elevadas, confirmando os seus antecedentes.

Extraído da obra “O Céu e o Inferno (ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo)”, de Allan Kardec. Versão encontrada no site Domínio Público.

***

Mais:

**Seção Estudos (publicada às quartas-feiras)

**Para baixar “O Céu e o Inferno” gratuitamente e sem infringir leis de direitos autorais clique aqui (site Domínio Público).

**Para conhecer as Obras Básicas da Doutrina Espírita clique aqui.

**As Obras Básicas da Doutrina Espírita– download gratuito  .

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts por email.

                        Se Jesus ameaçou os culpados com o fogo eterno, também os ameaçou de serem lançados na Geena. Ora, que vem a ser a Geena? Nada mais nada menos que um lugar nos arredores de Jerusalém, um monturo onde se despejavam as imundícies da cidade.

                        Dever-se-ia interpretar isso também ao pé da letra? Entretanto era uma dessas figuras enérgicas de que ele se servia para impressionar as massas. O mesmo se dá com o fogo eterno. E se tal não fora o seu pensar, ele estaria em contradição, exaltando a clemência e misericórdia de Deus, pois clemência e inexorabilidade são sentimentos antagônicos que se anulam. Desconhecer-se-ia, pois, o sentido das palavras de Jesus, atribuindo-lhes a sanção do dogma das penas eternas, quando todo o seu ensino proclamou a mansidão do Criador, a sua benignidade.

                        No Pai-Nosso Jesus nos ensina a dizer: — Perdoai-nos, Senhor, as nossas faltas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores. Pois se o culpado não devesse esperar algum perdão, inútil seria pedi-lo.

                        Esse perdão é, porém, incondicional? É uma remissão pura e simples da pena em que se incorre? Não; a medida desse perdão subordina-se ao modo pelo qual se haja perdoado, o que equivale dizer que não seremos perdoados desde que não perdoemos. Deus, fazendo do esquecimento das ofensas uma condição absoluta, não podia exigir do homem fraco o que Ele, onipotente, não fizesse.

(…)

                        Para homens que só possuíam da espiritualidade da alma uma idéia confusa, o fogo material nada tinha de improcedente, mesmo porque já participava da crença pagã, quase universalmente propagada. Igualmente a eternidade das penas nada tinha que pudesse repugnar a homens desde muitos séculos submetidos à legislação do terrível Jeová. No pensamento de Jesus o fogo eterno não podia passar, portanto, de simples figura, pouco lhe importando fosse essa figura interpretada à letra, desde que ela servisse de freio às paixões humanas. Sabia ele ao demais que o tempo e o progresso se incumbiriam de explicar o sentido alegórico, mesmo porque, segundo a sua predição, o Espírito de Verdade viria esclarecer aos homens todas as coisas. O caráter essencial das penas irrevogáveis é a ineficácia do arrependimento, e Jesus nunca disse que o arrependimento não mereceria a graça do Pai.

                        Ao contrário, sempre que se lhe deparou ensejo, ele falou de um Deus clemente, misericordioso, solícito em receber o filho pródigo que voltasse ao lar paterno; inflexível, sim, para o pecador obstinado, porém, pronto sempre a trocar o castigo pelo perdão do culpado sinceramente arrependido.

                        Este não é, por certo, o traço de um Deus sem piedade. Também convém assinalar que Jesus nunca pronunciou contra quem quer que fosse, mesmo contra os maiores culpados, a condenação irremissível.

Extraído da obra “O Céu e o Inferno (ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo)”, de Allan Kardec. Versão encontrada no site Domínio Público.

***

Mais:

**Seção Estudos (publicada às quartas-feiras)

**Para baixar “O Céu e o Inferno” gratuitamente e sem infringir leis de direitos autorais clique aqui (site Domínio Público).

**Para conhecer as Obras Básicas da Doutrina Espírita clique aqui.

**As Obras Básicas da Doutrina Espírita– download gratuito  .

A carne só é fraca porque o Espírito é fraco, o que inverte a questão deixando àquele a responsabilidade de todos os seus atos. A carne, destituída de pensamento e vontade, não pode prevalecer jamais sobre o Espírito, que é o ser pensante e de vontade própria.

 

O Espírito é quem dá à carne as qualidades correspondentes ao seu instinto, tal como o artista que imprime à obra material o cunho do seu gênio. Libertado dos instintos da bestialidade, elabora um corpo que não é mais um tirano de sua aspiração, para espiritualidade do seu ser, e é quando o homem passa a comer para viver e não mais vive para comer.

 

A responsabilidade moral dos atos da vida fica, portanto, intacta; mas a razão nos diz que as conseqüências dessa responsabilidade devem ser proporcionais ao desenvolvimento intelectual do Espírito. Assim, quanto mais esclarecido for este, menos desculpável se torna, uma vez que com a inteligência e o senso moral nascem as noções do bem e do mal, do justo e do injusto.

 

Esta lei explica o insucesso da Medicina em certos casos. Desde que o temperamento é um efeito e não uma causa, todo o esforço para modificá-lo se nulifica ante as disposições morais do Espírito, opondo-lhe uma resistência inconsciente que neutraliza a ação terapêutica. Por conseguinte, sobre a causa primordial é que se deve atuar.

 

Dai, se puderdes, coragem ao poltrão, e vereis para logo cessados os efeitos fisiológicos do medo. Isto prova ainda uma vez a necessidade, para a arte de curar, de levar em conta a influência espiritual sobre os organismos.

 

 

(Revue Spirite, março de 1869, p. 65.)

 

 

Extraído da obra “O Céu e o Inferno (ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo)”, de Allan Kardec. Versão encontrada no site Domínio Público.

 

***

 

Mais:

espaço

**Seção Estudos (publicada às quartas-feiras)

espaço

**Para baixar “O Céu e o Inferno” gratuitamente e sem infringir leis de direitos autorais clique aqui (site Domínio Público).

espaço

**Para conhecer as Obras Básicas da Doutrina Espírita clique aqui.

espaço

**As Obras Básicas da Doutrina Espírita– download gratuito  .

 

 

Em seguida à primeira evocação do Sr. Sanson, feita na Sociedade de Paris, um Espírito deu sob esta epígrafe a comunicação seguinte:

“Foi a de um justo a morte desse homem de quem neste momento vos ocupais, isto é, esperançosa e calma. Como o dia sucede naturalmente à aurora, a vida espiritual se lhe sucedeu à vida terrestre, sem rompimento nem abalo. O seu último suspiro foi tanto como um hino de reconhecimento e amor. E quão poucos os que atravessam assim a rude transição! Quão poucos os que após a confusão e desespero da vida concebem o ritmo harmonioso das esferas! Como o homem de saúde perfeita, de chofre mutilado, sofre nos membros separados ao corpo, assim, a alma do céptico, separada do corpo, se despedaça e, lancinante, se precipita no Espaço, inconsciente de si mesma.

“Orai por essas almas perturbadas; orai por todos os sofredores, que a caridade não se restringe à Humanidade visível, mas deve socorrer e consolar os habitantes do Espaço. Disso tivestes a prova evidente na súbita conversão desse Espírito tocado pelas preces espíritas sobre o túmulo do homem de bem que vindes interrogar e que deseja fazer-vos progredir no bom caminho. O amor não tem limites; enche o Espaço e dá e recebe mutuamente as suas divinas consolações. Também o mar se desenrola numa perspectiva infinita, cujo espetáculo deslumbra o espírito, parecendo confundir-se no seu limite com os céus. São duas grandezas que se extremam. Pois bem; assim é o amor; mais profundo que as ondas, mais infinito que o Espaço, a todos vós, encarnados e desencarnados, deve unir na santa comunhão da caridade, fusão sublime do finito e do eterno.

Georges.”

Extraído da obra “O Céu e o Inferno (ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo)”, de Allan Kardec. Versão encontrada no site Domínio Público.

***

Mais:                                                                            

**Seção Estudos (publicada às quartas-feiras)

**Para baixar “O Céu e o Inferno” gratuitamente e sem infringir leis de direitos autorais clique aqui (site Domínio Público).

**Para conhecer as Obras Básicas da Doutrina Espírita clique aqui.

**As Obras Básicas da Doutrina Espírita– download gratuito .

                        Posto nunca tivesse provado as cruciantes angústias da miséria, a Sra. B…, de Bordéus, teve uma vida de martírios físicos, em conseqüência de inumerável série de moléstias mais ou menos graves, a contar da idade de 5 meses. Vivendo 70 anos, quase que anualmente batia às portas do túmulo. Três vezes envenenada pela terapêutica de uma ciência experimental e duvidosa, em ensaios feitos sobre o seu organismo e temperamento, arruinada, ao demais, pelos remédios tanto quanto pela doença, assim viveu entregue a sofrimentos intoleráveis, que nada podia atenuar. Uma sua filha, espírita-cristã e médium pedia sempre a Deus para suavizar-lhe as cruéis provações. Foi porém aconselhada pelo seu guia a pedir simplesmente a fortaleza, a calma, a resignação para as suportar, fazendo acompanhar esse conselho das seguintes instruções:

                        “Nessa vida tudo tem sua razão de ser: não há um só dos vossos sofrimentos, que não corresponda aos sofrimentos por vós causados; não há um só dos vossos excessos que não tenha por conseqüência uma privação; não há uma só lágrima a destilar dos olhos, que não seja destinada a lavar uma falta, um crime qualquer.

                        “Suportai, portanto, com paciência e resignação as dores físicas e morais, por mais cruéis que elas se vos afigurem. Imaginai o trabalhador que, amortecidos os membros pela fadiga, prossegue no trabalho, porque tem diante de si a dourada espiga, outros tantos frutos da sua perseverança. Assim, a sorte do infeliz que sofre nesse mundo; a aspiração da felicidade, que deve constituir-se em fruto de sua paciência, torná-lo-á resistente às dores efêmeras da Humanidade. Eis o que se dá com tua mãe. Cada uma das suas dores acolhida como expiatória, corresponde à extinção de uma nódoa do passado; e quanto mais cedo as nódoas todas se extinguirem, tanto mais breve ela será feliz.

                        “A falta de resignação esteriliza o sofrimento, que, por isso mesmo, teria de ser recomeçado. Convém-lhe, pois, a coragem e a resignação, e o que se faz preciso é pedir a Deus e aos bons Espíritos que lha concedam. Tua mãe foi outrora um bom médico, vivendo num meio em que fácil se lhe tornava o bem-estar, e no qual lhe não faltaram dons nem homenagens. Sem ser filantrópico, e, por conseguinte, sem visar o alívio dos seus irmãos, mas cioso de glória e fortuna quis atingir o apogeu da Ciência, para aumentar a reputação e a clientela. E na consecução de tal propósito não havia consideração que o detivesse.

                        “Porque previa um estudo nas convulsões que investigava, sua mãe era martirizada no leito de sofrimentos, enquanto que o filho se submetia a experiências que deveriam explicar uns tantos fenômenos; aos velhos abreviava os dias e aos homens vigorosos enfraquecia com ensaios tendentes a comprovar a ação de tal ou qual medicamento. E todas essas experiências eram tentadas sem que o infeliz pacien- te delas soubesse ou sequer desconfiasse. A satisfação da cupidez e do orgulho, a sede de ouro e de renome, foram os móveis de tal conduta. Foram precisos séculos de provações terríveis para domar esse Espírito ambicioso e cheio de orgulho, até que o arrependimento iniciasse a obra de regeneração. Agora termina a reparação, visto como as provas dessa última encarnação podem dizer-se suaves relativamente às que já suportou. Coragem, pois, porque se o castigo foi longo e cruel, grande será a recompensa à resignação, à paciência, à humildade.

                        “Coragem, a todos vós que sofreis; considerai a brevidade da existência material, pensai nas alegrias eternas.

                        “Invocai a esperança, a dedicada amiga dos sofredores; a fé, sua irmã, que vos mostra o céu, onde com aquela podeis penetrar antecipadamente. Atraí também a vós esses amigos que o Senhor vos faculta, amigos que vos cercam, que vos sustentam e amam, e cuja solicitude constante vos reconduz para junto dAquele a quem haveis ofendido, transgredindo as suas leis.”

                        Depois de haver desencarnado, a Sra. B… veio dar, tanto por sua filha como na Sociedade de Paris, muitas comunicações, nas quais se refletem as qualidades mais elevadas, confirmando os seus antecedentes.

Extraído da obra “O Céu e o Inferno (ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo)”, de Allan Kardec. Versão encontrada no site Domínio Público.

***

Mais:

**Seção Estudos (publicada às quartas-feiras)

**Para baixar “O Céu e o Inferno” gratuitamente e sem infringir leis de direitos autorais clique aqui (site Domínio Público).

**Para conhecer as Obras Básicas da Doutrina Espírita clique aqui.

**As Obras Básicas da Doutrina Espírita– download gratuito  .

As atribuições dos Espíritos são proporcionadas ao seu progresso, às luzes que possuem, às suas capacidades, experiência e grau de confiança inspirada ao Senhor soberano.

Nem favores, nem privilégios que não sejam o prêmio ao mérito; tudo é medido e pesado na balança da estrita justiça.

As missões mais importantes são confiadas somente àqueles que Deus julga capazes de as cumprir e incapazes de desfalecimento ou comprometimento. E enquanto que os mais dignos compõem o supremo conselho, sob as vistas de Deus, a chefes superiores é cometida a direção de turbilhões planetários, e a outros conferida a de mundos especiais. Vêm, depois, pela ordem de adiantamento e subordinação hierárquica, as atribuições mais restritas dos prepostos ao progresso dos povos, à proteção das famílias e indivíduos, ao impulso de cada ramo de progresso, às diversas operações da Natureza até aos mais ínfimos pormenores da Criação. Neste vasto e harmônico conjunto há ocupações para todas as capacidades, aptidões e esforços; ocupações aceitas com júbilo, solicitadas com ardor, por serem um meio de adiantamento para os Espíritos que ao progresso aspiram.

Ao lado das grandes missões confiadas aos Espíritos superiores, há outras de importância relativa em todos os graus, concedidas a Espíritos de todas as categorias, podendo afirmar-se que cada encarnado tem a sua, isto é, deveres a preencher a bem dos seus semelhantes, desde o chefe de família, a quem incumbe o progresso dos filhos, até o homem de gênio que lança às sociedades novos germens de progresso. É nessas missões secundárias que se verificam desfalecimentos, prevaricações e renúncias que prejudicam o indivíduo sem afetar o todo.

Todas as inteligências concorrem, pois, para a obra geral, qualquer que seja o grau atingido, e cada uma na medida das suas forças, seja no estado de encarnação ou no espiritual. Por toda parte a atividade, desde a base ao ápice da escala, instruindo-se, coadjuvando-se em mútuo apoio, dando-se as mãos para alcançarem o zênite.

Assim se estabelece a solidariedade entre o mundo espiritual e o corporal, ou, em outros termos, entre os homens e os Espíritos, entre os Espíritos libertos e os cativos. Assim se perpetuam e consolidam, pela purificação e continuidade de relações, as verdadeiras simpatias e nobres afeições.

Por toda parte, a vida e o movimento: nenhum canto do infinito despovoado, nenhuma região que não seja incessantemente percorrida por legiões inumeráveis de Espíritos radiantes, invisíveis aos sentidos grosseiros dos encarnados,mas cuja vista deslumbra de alegria e admiração as almas libertas da matéria. Por toda parte, enfim, há uma felicidade relativa a todos os progressos, a todos os deveres cumpridos, trazendo cada um consigo os elementos de sua felicidade, decorrente da categoria em que se coloca pelo seu adiantamento.

Das qualidades do indivíduo depende-lhe a felicidade, e não do estado material do meio em que se encontra, podendo a felicidade, portanto, existir em qualquer parte onde haja Espíritos capazes de a gozar. Nenhum lugar lhe é circunscrito e assinalado no Universo.

Onde quer que se encontrem, os Espíritos podem contemplar a majestade divina, porque Deus está em toda parte.

Entretanto, a felicidade não é pessoal: Se a possuíssemos somente em nós mesmos, sem poder reparti-la com outrem, ela seria tristemente egoísta. Também a encontramos na comunhão de idéias que une os seres simpáticos.

Os Espíritos felizes, atraindo-se pela similitude de gestos e sentimentos, formam vastos agrupamentos ou famílias homogêneas, no seio das quais cada individualidade irradia as qualidades próprias e satura-se dos eflúvios serenos e benéficos emanados do conjunto.

Extraído da obra “O Céu e o Inferno (ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo)”, de Allan Kardec. Versão encontrada no site Domínio Público.

***

Mais:                                                                            

**Seção Estudos (publicada às quartas-feiras)

**Para baixar “O Céu e o Inferno” gratuitamente e sem infringir leis de direitos autorais clique aqui (site Domínio Público).

**Para conhecer as Obras Básicas da Doutrina Espírita clique aqui.

Os Espíritos são criados simples e ignorantes, mas dotados de aptidões para tudo conhecerem e para progredirem, em virtude do seu livre-arbítrio. Pelo progresso adquirem novos conhecimentos, novas faculdades, novas percepções e, conseguintemente, novos gozos desconhecidos dos Espíritos inferiores; eles vêem, ouvem, sentem e compreendem o que os Espíritos atrasados não podem ver, sentir, ouvir ou compreender.

A felicidade está na razão direta do progresso realizado, de sorte que, de dois Espíritos, um pode não ser tão feliz quanto outro, unicamente por não possuir o mesmo adiantamento intelectual e moral, sem que por isso precisem estar, cada qual, em lugar distinto. Ainda que juntos, pode um estar em trevas, enquanto que tudo resplandece para o outro, tal como um cego e um vidente que se dão as mãos: este percebe a luz da qual aquele não recebe a mínima impressão.

Sendo a felicidade dos Espíritos inerente às suas qualidades, haurem-na eles em toda parte em que se encontram, seja à superfície da Terra, no meio dos encarnados, ou no Espaço.

Uma comparação vulgar fará compreender melhor esta situação. Se se encontrarem em um concerto dois homens, um, bom músico, de ouvido educado, e outro, desconhecedor da música, de sentido auditivo pouco delicado, o primeiro experimentará sensação de felicidade, enquanto o segundo permanecerá insensível, porque um compreende e percebe o que nenhuma impressão produz no outro. Assim sucede quanto a todos os gozos dos Espíritos, que estão na razão da sua sensibilidade.

O mundo espiritual tem esplendores por toda parte, harmonias e sensações que os Espíritos inferiores, submetidos à influência da matéria, não entrevêem sequer, e que somente são acessíveis aos Espíritos purificados.

O progresso nos Espíritos é o fruto do próprio trabalho; mas, como são livres, trabalham no seu adiantamento com maior ou menor atividade, com mais ou menos negligência, segundo sua vontade, acelerando ou retardando o progresso e, por conseguinte, a própria felicidade.

Enquanto uns avançam rapidamente, entorpecem-se outros, quais poltrões, nas fileiras inferiores. São eles, pois, os próprios autores da sua situação, feliz ou desgraçada, conforme esta frase do Cristo: — A cada um segundo as suas obras.

Extraído da obra “O Céu e o Inferno (ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo)”, de Allan Kardec. Versão encontrada no site Domínio Público.

***

Mais:                                                                            

**Seção Estudos (publicada às quartas-feiras)

**Para baixar “O Céu e o Inferno” gratuitamente e sem infringir leis de direitos autorais clique aqui (site Domínio Público).

**Para conhecer as Obras Básicas da Doutrina Espírita clique aqui.

**As Obras Básicas da Doutrina Espírita– download gratuito .

Em seguida à primeira evocação do Sr. Sanson, feita na Sociedade de Paris, um Espírito deu sob esta epígrafe a comunicação seguinte:

“Foi a de um justo a morte desse homem de quem neste momento vos ocupais, isto é, esperançosa e calma. Como o dia sucede naturalmente à aurora, a vida espiritual se lhe sucedeu à vida terrestre, sem rompimento nem abalo. O seu último suspiro foi tanto como um hino de reconhecimento e amor. E quão poucos os que atravessam assim a rude transição! Quão poucos os que após a confusão e desespero da vida concebem o ritmo harmonioso das esferas! Como o homem de saúde perfeita, de chofre mutilado, sofre nos membros separados ao corpo, assim, a alma do céptico, separada do corpo, se despedaça e, lancinante, se precipita no Espaço, inconsciente de si mesma.

“Orai por essas almas perturbadas; orai por todos os sofredores, que a caridade não se restringe à Humanidade visível, mas deve socorrer e consolar os habitantes do Espaço. Disso tivestes a prova evidente na súbita conversão desse Espírito tocado pelas preces espíritas sobre o túmulo do homem de bem que vindes interrogar e que deseja fazer-vos progredir no bom caminho. O amor não tem limites; enche o Espaço e dá e recebe mutuamente as suas divinas consolações. Também o mar se desenrola numa perspectiva infinita, cujo espetáculo deslumbra o espírito, parecendo confundir-se no seu limite com os céus. São duas grandezas que se extremam. Pois bem; assim é o amor; mais profundo que as ondas, mais infinito que o Espaço, a todos vós, encarnados e desencarnados, deve unir na santa comunhão da caridade, fusão sublime do finito e do eterno.

Georges.”

Extraído da obra “O Céu e o Inferno (ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo)”, de Allan Kardec. Versão encontrada no site Domínio Público.

***

Mais:                                                                            

**Seção Estudos (publicada às quartas-feiras)

**Para baixar “O Céu e o Inferno” gratuitamente e sem infringir leis de direitos autorais clique aqui (site Domínio Público).

**Para conhecer as Obras Básicas da Doutrina Espírita clique aqui.

**As Obras Básicas da Doutrina Espírita– download gratuito .

13. Se a religião, apropriada em começo aos conhecimentos limitados do homem, tivesse acompanhado sempre o movimento progressivo do espírito humano, não haveria incrédulos,porque está na própria natureza do homem a necessidade de crer, e ele crerá desde que se lhe dê o pábulo espiritual de harmonia com as suas necessidades intelectuais.

O homem quer saber donde veio e para onde vai. Mostrando-se-lhe um fim que não corresponde às suas aspirações nem à idéia que ele faz de Deus, tampouco aos dados positivos que lhe fornece a Ciência; impondo-se-lhe, ademais, para atingir o seu desiderato, condições cuja utilidade sua razão contesta, ele tudo rejeita; o materialismo e o panteísmo parecem-lhe mais racionais, porque com eles ao menos se raciocina e se discute, falsamente embora. E há razão, porque antes raciocinar em falso do que não raciocinar absolutamente.

Apresente-se-lhe, porém, um futuro condicionalmente lógico, digno em tudo da grandeza, da justiça e da infinita bondade de Deus, e ele repudiará o materialismo e o panteísmo, cujo vácuo sente em seu foro íntimo, e que aceitará à falta de melhor crença.

O Espiritismo dá coisa melhor; eis por que é acolhido pressurosamente por todos os atormentados da dúvida, os que não encontram nem nas crenças nem nas filosofias vulgares o que procuram. O Espiritismo tem por si a lógica do raciocínio e a sanção dos fatos, e é por isso que inutilmente o têm combatido.

14. Instintivamente tem o homem a crença no futuro, mas não possuindo até agora nenhuma base certa para defini-lo, a sua imaginação fantasiou os sistemas que originaram a diversidade de crenças. A Doutrina Espírita sobre o futuro — não sendo uma obra de imaginação mais ou menos arquitetada engenhosamente, porém o resultado da observação de fatos materiais que se desdobram hoje à nossa vista — congraçará, como já está acontecendo, as opiniões divergentes ou flutuantes e trará gradualmente, pela força das coisas, a unidade de crenças sobre esse ponto, não já baseada em simples hipótese, mas na certeza. A unificação feita relativamente à sorte futura das almas será o primeiro ponto de contacto dos diversos cultos, um passo imenso para a tolerância religiosa em primeiro lugar e, mais tarde, para a completa fusão.

Extraído da obra “O Céu e o Inferno (ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo)”, de Allan Kardec. Versão encontrada no site Domínio Público.

***

Mais:                                                                            

**Seção Estudos (publicada às quartas-feiras)

**Para baixar “O Céu e o Inferno” gratuitamente e sem infringir leis de direitos autorais clique aqui (site Domínio Público).

**Para conhecer as Obras Básicas da Doutrina Espírita clique aqui.

**As Obras Básicas da Doutrina Espírita– download gratuito .

Jovem de 25 anos, falecida subitamente no lar, sem sofrimentos, sem causa previamente conhecida. Rica e um tanto frívola, a leviandade de caráter predispunha-a mais para as futilidades da vida do que para as coisas sérias. Não obstante, possuía um coração bondoso e era dócil, afetuosa e caritativa.

Evocada três dias após a morte por pessoas conhecidas, exprimia-se assim:

“Não sei onde estou… que turbação me cerca! Chamaste- me, e eu vim. Não compreendo por que não estou em minha casa; lamentam a minha ausência quando presente estou, sem poder fazer-me reconhecida. Meu corpo não mais me pertence, e no entanto eu lhe sinto a algidez… Quero deixá-lo e mais a ele me prendo, sempre… Sou como que duas personalidades… Oh! quando chegarei a compreender o que comigo se passa? É necessário que vá lá ainda… meu outro ‘eu’, que lhe sucederá na minha ausência? Adeus.”

O sentimento da dualidade que não está ainda destruído por uma completa separação, é aqui evidente. Caráter volúvel, permitindo- lhe a posição e a fortuna a satisfação de todos os caprichos, deveria igualmente favorecer as tendências de leviandade. Não admira, pois, tenha sido lento o seu desprendimento, a ponto de, três dias após a morte, sentir-se ainda ligada ao invólucro corporal. Mas, como não possuísse vícios sérios e fosse de boa índole, essa situação nada tinha de penosa e não deveria prolongar-se por muito tempo. Evocada novamente depois de alguns dias, as suas idéias estavam já muito modificadas. Eis o que disse:

“Obrigada por haverdes orado por mim. Reconheço a bondade de Deus, que me subtraiu aos sofrimentos e apreensões conseqüentes ao desligamento do meu Espírito. À minha pobre mãe será dificílimo resignar-se; entretanto será confortada, e o que a seus olhos constitui sensível desgraça, era fatal e indispensável para que as coisas do Céu se lhe tornassem no que devem ser: tudo. Estarei ao seu lado até o fim da sua provação terrestre, ajudando-a a suportá-la.

“Não sou infeliz, porém, muito tenho ainda a fazer para aproximar-me da situação dos bem-aventurados. Pedirei a Deus me conceda voltar a essa Terra para reparação do tempo que aí perdi nesta última existência.

‘A fé vos ampare, meus amigos; confiai na eficácia da prece, mormente quando partida do coração. Deus é bom.’

— P. Levastes muito tempo a reconhecer-vos?

— R. Compreendi a morte no mesmo dia que por mim orastes.

— P. Era doloroso o estado de perturbação?

— R. Não, eu não sofria, acreditava sonhar e aguardava o despertar. Minha vida não foi isenta de dores, mas todo ser encarnado nesse mundo deve sofrer. Resignando-me à vontade de Deus, a minha resignação foi por Ele levada em conta. Grata vos sou pelas preces que me auxiliaram no reconhecimento de mim mesma. Obrigada; voltarei sempre com prazer. Adeus.

Hélène.”

Extraído da obra “O Céu e o Inferno (ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo)”, de Allan Kardec. Versão encontrada no site Domínio Público.

***

Mais:                                                                            

**Seção Estudos (publicada às quartas-feiras)

**Para baixar “O Céu e o Inferno” gratuitamente e sem infringir leis de direitos autorais clique aqui (site Domínio Público).

**Para conhecer as Obras Básicas da Doutrina Espírita clique aqui.

**As Obras Básicas da Doutrina Espírita– download gratuito .

M. P…, de Moscou, era um médico tão eminente pelo saber como pelas qualidades morais. Quem o evocou apenas o conhecia por tradição, não havendo tido com ele relações sequer indiretas. A original comunicação foi dada em idioma russo.

— P. (Depois da evocação.) Estais presente? — R. Sim. No dia da minha morte vos persegui com a minha presença, e resististes às tentativas que fiz para escreverdes. As palavras, que a meu respeito dissestes, deram ocasião a que vos reconhecesse, e daí o desejo de me entreter convosco para vosso benefício.

— P. Bom como éreis, por que sofrestes tanto? — R. Porque ao Senhor aprouve fazer-me sentir duplamente por esse meio o preço da minha libertação, querendo ao mesmo tempo que na Terra progredisse o mais possível.

— P. A idéia da morte causou-vos terror? — R. Tinha bastante fé em Deus para que tal não sucedesse.

— P. O desprendimento foi doloroso? — R. Não. Isso que denominais últimos momentos, nada é. Eu apenas senti um rápido abalo, para encontrar-me logo feliz, inteiramente desembaraçado da mísera carcaça.

— P. E que sucedeu depois? — R. Tive o prazer de ver aproximarem-se inúmeros amigos, notadamente os que tive a satisfação de ajudar, dando-me todos as boas-vindas.

— P. Que regiões habitais? Acaso algum planeta? — R. Tudo que não seja planeta, constitui o que chamais Espaço e é neste que permaneço. O homem não pode, contudo, calcular, fazer uma idéia, sequer, do número de gradações desta imensidade. Que infinidade de escalas nesta escada de Jacob que vai da Terra ao Céu, isto é, do aviltamento da encarnação em mundo inferior, como esse, até à depuração completa da alma! Ao lugar em que ora me encontro não se chega senão depois de uma série enorme de provas, ou, por outra, de encarnações.

— P. Logo, deveis ter tido muitas existências? — R. Nem podia ser de outra maneira. Nada há excepcional na ordem imutável do Universo, estabelecida por Deus. A recompensa só pode vir depois da luta vencida: assim, se grande for aquela é que também esta o foi e necessariamente. Mas a vida humana é tão curta que a luta apenas se trava por intervalos, que são as diferentes e sucessivas encarnações. É fácil, pois, concluir que, estando eu num dos graus elevados, o atingi depois de uma série de combates, nos quais Deus me permitiu saísse vitorioso algumas vezes.

— P. Em que consiste a vossa felicidade? — R. Isso é mais difícil de vos fazer compreender. Essa ventura que gozo é uma espécie de contentamento extremo de mim mesmo, não pelos meus merecimentos — o que seria orgulho — e este é predicado de Espíritos atrasados — mas contentamento como que saturado, imerso no amor de Deus, no reconhecimento da sua infinita bondade. Em suma, é a alegria que nos infunde o bem, podendo supor-se ter a seu arbítrio contribuído para o progresso de outros, que se elevaram até o Criador. Ficamos como que identificados com esse bem-estar, que é uma espécie de fusão do Espírito com a bondade divina. Temos o dom de ver os Espíritos mais adiantados, de compreender-lhes a missão, de saber que também nós a tanto chegaremos; no infinito incomensurável, entrevemos as regiões em que rútilo esplende o fogo divino, a ponto de deslumbrar-nos, mesmo através do véu que as envolve.

Mas, que digo? Compreendeis as minhas palavras? Acreditais ser esse fogo, a que me refiro, comparável ao Sol, por exemplo? Não, nunca. É uma coisa indizível ao homem, uma vez que as palavras só exprimem para ele coisas físicas ou metafísicas que conhece de memória ou intuitivamente. Desde que o homem não pode guardar na memória o que absolutamente desconhece, como insinuar-se-lhe a percepção? Ficai porém ciente de que é já uma grande ventura o pensar na possibilidade de progredir infinitamente.

— P. Tivestes a bondade de exprimir o desejo de me ser útil: peço-vos me digais em quê. — R. Posso ajudar-vos e amparar nos desfalecimentos, fortalecer nos momentos de desânimo, consolar nos de aflição. Se a vossa fé se abalar e qualquer comoção vos perturbar, evocai-me, porque Deus me permitirá vo-lo fazer lembrado, atraindo-vos para Ele. Se vos sentirdes prestes a sucumbir ao peso das más tendências, que a própria consciência acuse de culposas, chamai-me ainda, porque eu vos ajudarei a carregar a vossa cruz, tal como a Jesus ajudaram a carregar aquela donde tão solenemente deveria proclamar a verdade, a caridade. Se vacilardes ao peso dos próprios dissabores, quando o desespero de vós se apodere, ainda uma vez chamai-me para que venha arrancar-vos do abismo, falando-vos espiritualmente, lembrando deveres impostos, não por considerações sociais ou materiais, mas pelo amor que vos transfundirei na alma, amor por Deus a mim concedido em favor dos que por ele podem salvar-se.

Certo, na Terra tendes amigos, os quais, compartilhando das vossas angústias, talvez já vos tenham salvo. Em momentos aflitivos tratais de procurar esses amigos, que  dão conselhos, apoio, carícias… Pois bem: ficai certo de que no Espaço também podeis ter amigos, úteis e prestantes.

É uma consolação poder-se dizer: Quando eu morrer, enquanto à cabeceira do leito os amigos da Terra chorarem e pedirem, os do Espaço, no limiar da vida, irão sorridentes conduzir-me ao lugar adequado aos meus méritos e virtudes.

— P. Por que faço jus a essa proteção que quereis dispensar-me? — R. Eis a razão: A vós me afeiçoei logo no dia da minha morte: — é que, como Espírito, vos vi do Espiritismo adepto sincero e bom médium. E como dentre tantos que aí deixei fostes vós que vi primeiramente, logo me propus contribuir para o vosso progresso. O proveito não é apenas vosso, mas também dos que deveis instruir no conhecimento da verdade.

Na vossa missão podeis ver uma prova eloqüente do amor de Deus para convosco. Os que a vós se chegarem, pouco a pouco se tornarão crentes, e aos mais refratários, em vos ouvindo, também chegará, embora mais tarde, a vez de crer. Desanimar, nunca; caminhar sempre, apesar dos pedregulhos. Tomai-me por apoio nos momentos de desânimo.

— P. Não me julgo digno de tão grande favor. — R. Mas por certo que bem longe estais da perfeição. Não obstante o vosso ardor na prática das sãs doutrinas; o cuidado em manter a fé dos que vos ouvem; em aconselhar a caridade, a bondade e a benevolência, mesmo para os que convosco mal se conduzem; a resistência aos instintos de cólera, que aliás facilmente poderíeis descarregar nos que vos afligem, por ignorantes das vossas intenções; tudo isso atenua a maldade que ainda possuís. Convém que o diga: o perdão das ofensas é, de tantas, uma das mais poderosas atenuantes do mal. Deus vos cumula de graças pela faculdade que vos concedeu, e que deveis desenvolver pelo esforço próprio, a fim de cooperardes na salvação do próximo. Vou deixar-vos, porém contai sempre comigo. Preciso se faz modereis as idéias terrenas, vivendo o mais possível com os amigos do Espaço.

P…

Extraído da obra “O Céu e o Inferno (ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo)”, de Allan Kardec. Versão encontrada no site Domínio Público.

***

Mais:                                                                            

**Seção Estudos (publicada às quartas-feiras)

**Para baixar “O Céu e o Inferno” gratuitamente e sem infringir leis de direitos autorais clique aqui (site Domínio Público).

**Para conhecer as Obras Básicas da Doutrina Espírita clique aqui.

**As Obras Básicas da Doutrina Espírita– download gratuito .

Havia num hospital de província um menino de 8 a 10 anos, cujo estado era difícil precisar. Designavam-no pelo nº 4. Totalmente contorcido, já pela sua deformidade inata, já pela doença, as pernas se lhe torciam roçando pelo pescoço, num tal estado de magreza, que eram pele sobre ossos. O corpo, uma chaga; os sofrimentos, atrozes. Era oriundo de uma família israelita. A moléstia dominava aquele organismo, já de oito longos anos, e no entanto demonstrava o enfermo uma inteligência notável, além de candura, paciência e resignação edificantes. O médico que o assistia, cheio de compaixão pelo pobre um tanto abandonado, visto que seus parentes pouco o visitavam, tomou por ele certo interesse. E achava-lhe um quê de atraente na precocidade intelectual. Assim, não só o tratava com bondade, como lia-lhe quando as ocupações lho permitiam, admirando-se do seu critério na apreciação de coisas a seu ver superiores ao discernimento da sua idade. Um dia, o menino disse-lhe:

— “Doutor, tenha a bondade de me dar ainda uma vez aquelas pílulas ultimamente receitadas.” Para quê? replicou-lhe o médico, se já te ministrei o suficiente, e maior quantidade pode fazer-te mal…

— “É que eu sofro tanto, que dificilmente posso orar a Deus para que me dê forças, pois não quero incomodar os outros enfermos que aí estão. Essas pílulas fazem-me dormir e, ao menos quando durmo, a ninguém incomodo.”

Aqui está quanto basta para demonstrar a grandeza dessa alma encerrada num corpo informe. Onde teria ido essa criança haurir tais sentimentos? Certo, não foi no meio em que se educou; além disso, na idade em que principiou a sofrer, não possuía sequer o raciocínio.

Tais sentimentos eram-lhe inatos: — mas então por que se via condenado ao sofrimento, admitindo-se que Deus houvesse concomitantemente criado uma alma assim tão nobre e aquele mísero corpo –– instrumento dos suplícios?

É preciso negar a bondade de Deus, ou admitir a anterioridade de causa; isto é, a preexistência da alma e a pluralidade das existências.

Os últimos pensamentos desta criança, ao desencarnar, foram para Deus e para o caridoso médico que dela se condoeu. Decorrido algum tempo, foi o seu Espírito evocado na Sociedade de Paris, onde deu a seguinte comunicação (1863):

“A vosso chamado, vim fazer que a minha voz se estenda para além deste círculo, tocando todos os corações. Oxalá seu eco se faça ouvir na solidão, lembrando-lhes que as agonias da Terra têm por premissas as alegrias do céu; que o martírio não é mais do que a casca de um fruto deleitável,
dando coragem e resignação.

“Essa voz lhes dirá que, sobre o catre da miséria, estão os enviados do Senhor, cuja missão consiste na exemplificação de que não há dor insuperável, desde que tenhamos o auxílio do Onipotente e dos seus bons Espíritos. Essa voz lhes fará ouvir lamentações de mistura com preces, para que lhes compreendam a harmonia piedosa, bem diferente da de coros de lamentações mescladas com blasfêmias.

“Um dos vossos bons Espíritos, grande apóstolo do Espiritismo, cedeu-me o seu lugar por esta noite. Por minha vez, também me compete dizer algo sobre o progresso da vossa Doutrina, que deve auxiliar em sua missão os que entre vós encarnam para aprender a sofrer. O Espiritismo será a pedra de toque; os padecentes terão o exemplo e a palavra, e então as imprecações se transformarão em gritos de alegria e lágrimas de contentamento.”

— P. Pelo que afirmais, parece que os vossos sofrimentos não eram expiação de faltas anteriores…

— R. Não seriam uma expiação direta, mas asseguro-vos que todo sofrimento tem uma causa justa. Aquele a quem conhecestes tão mísero foi belo, grande, rico e adulado. Eu tivera turiferários e cortesãos, fora fútil e orgulhoso. Anteriormente fui bem culpado; reneguei Deus, prejudiquei meu semelhante, mas expiei cruelmente, primeiro no mundo espiritual e depois na Terra. Os meus sofrimentos de alguns anos apenas, nesta última encarnação, suportei-os eu anteriormente por toda uma existência que raiou pela extrema velhice. Por meu arrependimento reconquistei a graça do Senhor, o qual me confiou muitas missões, inclusive a última, que bem conheceis. E fui eu quem as solicitou, para terminar a minha depuração.

Adeus, amigos; tornarei algumas vezes. A minha missão é de consolar, e não de instruir. Há, porém, aqui muitas pessoas cujas feridas jazem ocultas, e essas terão prazer com a minha presença.

Marcel.

Instruções do guia do médium

Pobrezinho sofredor, definhado, ulceroso e disforme! Nesse asilo de misérias e lágrimas, quantos gemidos exalados! E como era resignado… e como a sua alma lobrigava já então o termo dos sofrimentos, apesar da tenra idade! No além-túmulo, pressentia a recompensa de tantos gemidos abafados, e esperava! E como orava também por aqueles que não tinham resignação no sofrimento, pelos que trocavam preces por blasfêmias!

Foi-lhe lenta a agonia, mas terrível não lhe foi a hora do trespasse; certo, os membros convulsos contorciam-se, oferecendo aos assistentes o espetáculo de um corpo disforme a revoltar-se contra a sorte, nessa lei da carne que a todo o custo quer viver; mas, um anjo bom lhe pairava por sobre o leito mortuário e cicatrizava-lhe o coração. Depois, esse anjo arrebatou nas asas brancas essa alma tão bela a escapar-se de tão horripilante corpo, e foram estas as palavras pronunciadas: “Glória a vós, Senhor, meu Deus!” E a alma subiu ao Todo-Poderoso, feliz, e exclamou: “Eis-me aqui, Senhor; destes-me por missão exemplificar o sofrimento… terei suportado dignamente a provação?”

Hoje, o Espírito da pobre criança avulta, paira no Espaço, vai do fraco ao humilde, e a todos diz: — Esperança e coragem. Livre de todas as impurezas da matéria, ele aí está junto de vós a falar-vos, a dizer-vos não mais com essa voz fraca e lastimosa, porém agora firme: “Todos que me observaram, viram que a criança não murmurava; hauriram nesse exemplo a calma para os seus males e seus corações se tonificaram na suave confiança em Deus, que outro não era o fim da minha curta passagem pela Terra.”

Santo Agostinho.

Extraído da obra “O Céu e o Inferno (ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo)”, de Allan Kardec. Versão encontrada no site Domínio Público.

***

Mais:                                                                            

**Seção Estudos (publicada às quartas-feiras)

**Para baixar “O Céu e o Inferno” gratuitamente e sem infringir leis de direitos autorais clique aqui (site Domínio Público).

**Para conhecer as Obras Básicas da Doutrina Espírita clique aqui.

**As Obras Básicas da Doutrina Espírita– download gratuito .

Este antigo membro da Sociedade Espírita de Paris faleceu a 21 de abril de 1862, depois de um ano de atrozes padecimentos. Prevendo a morte, dirigira ao presidente da Sociedade uma carta com o tópico seguinte:

“Podendo dar-se o caso de ser surpreendido pela separação entre minha alma e meu corpo, ocorre-me reiterar-vos um pedido que vos fiz há cerca de um ano, qual o de evocar o meu Espírito o mais breve possível, a fim de, como membro assaz inútil da nossa Sociedade, poder prestar-lhe para alguma coisa depois de morto, esclarecendo fase por fase as circunstâncias decorrentes do que o vulgo chama morte, e que, para nós outros — os espíritas — não passa de uma transformação, segundo os desígnios insondáveis de Deus, mas sempre útil ao fim que Ele se propõe. Além deste pedido — que é uma autorização para me honrardes com essa autópsia espiritual, talvez improfícua em razão do meu quase nulo adiantamento, e que a vossa sabedoria não consentirá ir além de um certo número de ensaios — ouso pedir pessoalmente a vós como a todos os colegas que supliquem ao Todo-Poderoso a assistência de bons Espíritos, e a São Luís, nosso presidente espiritual, em particular, que me guie na escolha e sobre a época de uma nova encarnação, idéia que de há muito me preocupa.

“Arreceio-me de confiar demais nas minhas forças espirituais, rogando a Deus, muito cedo e presunçosamente, um estado corporal no qual eu não possa justificar a divina bondade, de modo a prejudicar o meu próprio adiantamento e prolongar a estação na Terra ou em outra qualquer parte, desde que naufrague.”

Para satisfazer-lhe o desejo, evocando-o o mais breve possível, dirigimo-nos com alguns membros da Sociedade à câmara mortuária, onde, em presença do seu corpo, se passou o seguinte colóquio, precedendo uma hora o respectivo enterro. Era duplo o nosso fim: íamos cumprir uma vontade última e íamos observar, ainda uma vez, a situação de uma alma em momento tão imediato à morte, tratando-se, ao demais, de um homem eminentemente esclarecido, inteligente e profundamente convicto das verdades espíritas. Íamos enfim colher nas suas primeiras impressões a prova de quanto, sobre o estado do Espírito, pode influir a compenetração dessas verdades. E não nos iludimos na expectativa, porquanto o Sr. Sanson descreveu, plenamente lúcido, o instante da transição, vendo-se morrer e renascer, o que é uma circunstância pouco comum e só devida à elevação do seu Espírito.

I
(Câmara mortuária, 23 de abril de 1862.)

1. Evocação. — Atendo ao vosso chamado para cumprir a minha promessa.

2. Meu caro Sr. Sanson, cumprindo um dever, com satisfação vos evocamos o mais cedo possível depois da vossa morte, como era do vosso desejo. — R. É uma graça especial que Deus me concede para que possa manifestar-me; agradeço a vossa boa vontade, porém, sou tão fraco que tremo.

3. Fostes tão sofredor que podemos, penso eu, perguntar como vos achais agora… Sentis ainda as vossas dores? Comparando a situação de hoje com a de dois dias atrás, que sensações experimentais? — R. A minha situação é bem-ditosa; acho-me regenerado, renovado, como se diz entre vós, nada mais sentindo das antigas dores. A passagem da vida terrena para a dos Espíritos deixou-me de começo num estado incompreensível, porque ficamos algumas vezes muitos dias privados de lucidez. Eu havia feito no entanto um pedido a Deus para permitir-me falar aos que estimo, e Deus ouviu-me.

4. Ao fim de que tempo recobrastes a lucidez das idéias? — R. Ao fim de oito horas. Deus, repito, deu-me uma prova de sua bondade, maior que o meu merecimento, e eu não sei como agradecer-lhe.

5. Estais bem certo de não pertencerdes mais ao nosso mundo? — No caso afirmativo, como comprová-lo? — R. Oh! certamente, eu não sou mais desse mundo, porém, estarei sempre ao vosso lado para vos proteger e sustentar, a fim de pregardes a caridade e a abnegação, que foram os guias da minha vida. Depois, ensinarei a verdadeira fé, a fé espírita, que deve elevar a crença do bom e do justo; estou forte, robusto, em uma palavra — transformado. Em mim não reconhecereis mais o velho enfermo que tudo devia esquecer, fugindo de todo prazer e alegria. Eu sou Espírito e a minha pátria é o Espaço, o meu futuro é Deus, que reina na imensidade. Desejara poder falar a meus filhos, ensinar-lhes aquilo mesmo que sempre desdenharam acreditar.

6. Que efeito vos causa o vosso corpo aqui ao lado? — R. Meu corpo! pobre, mísero despojo… volve ao pó, enquanto eu guardo a lembrança de todos que me estimaram. Vejo essa pobre carne decomposta, morada que foi do meu Espírito, provação de tantos anos! Obrigado, mísero corpo, pois que purificaste o meu Espírito! O meu sofrimento, dez vezes bendito, deu-me um lugar bem compensador, por isso que tão depressa posso comunicar-me convosco…

7. Conservastes as idéias até ao último instante? — R. Sim. O meu Espírito conservou as suas faculdades, e quando eu já não mais via, pressentia. Toda a minha existência se desdobrou na memória e o meu último pensamento, a última prece, foi para que pudesse comunicar-me convosco, como o faço agora; em seguida pedi a Deus que vos protegesse, para que o sonho da minha vida se completasse.

8. Tivestes consciência do momento em que o corpo exalou o derradeiro suspiro? que se passou convosco nesse momento? que sensação experimentastes? — R. Parte-se a vida e a vista, ou antes, a vista do Espírito se extingue; encontra-se o vácuo, o ignoto, e arrastada por não sei que poder, encontra-se a gente num mundo de alegria e grandeza! Eu não sentia, nada compreendia e, no entanto, uma felicidade inefável me extasiava de gozo, livre do peso das dores.

9. Tendes ciência… do que pretendo ler sobre a vossa campa? Apenas pronunciadas as primeiras palavras sobre o assunto, o Espírito respondeu sem que eu terminasse. Também respondeu, sem interrogação alguma, a certa controvérsia suscitada entre os assistentes, sobre se seria oportuno ler esta comunicação no cemitério, achando-se presentes pessoas que poderiam não compartilhar das nossas opiniões.

— R. Ah! sei, meu amigo, e sei, por que tanto vos via ontem como hoje… que grande é a minha alegria! Obrigado! Obrigado! Falai… falai para que me compreendam e vos estimem; nada tendes que temer, pois que se respeita a morte… falai pois, para que os incrédulos tenham fé. Adeus; falai; coragem, confiança, e oxalá meus filhos possam converter-se a uma crença sacrossanta.

J. Sanson.

Durante a cerimônia do cemitério, ele ditou as palavras seguintes: “Não vos atemorize a morte, meus amigos: ela é um estádio da vida, se bem souberdes viver; é uma felicidade, se bem a merecerdes e melhor cumprirdes as vossas provações. Repito: coragem e boa vontade! Não deis mais que medíocre valor aos bens terrenos, e sereis recompensados. Não se pode muito gozar, sem tirar de outrem o bem-estar e sem fazer moralmente um grande, um imenso mal. A terra me seja leve.”

Extraído da obra “O Céu e o Inferno (ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo)”, de Allan Kardec. Versão encontrada no site Domínio Público.

***

Mais:                                                                            

**Seção Estudos (publicada às quartas-feiras)

**Para baixar “O Céu e o Inferno” gratuitamente e sem infringir leis de direitos autorais clique aqui (site Domínio Público).

**Para conhecer as Obras Básicas da Doutrina Espírita clique aqui.

**As Obras Básicas da Doutrina Espírita– download gratuito .

Este era um homem de bem na verdadeira acepção da palavra. Ninguém se lembrava de o ter visto cometer uma ação má ou errar voluntariamente no que quer que fosse. De um devotamento extremo pelos amigos, podia-se ter como certo o seu acolhimento, em se tratando de quaisquer favores, ainda que contrários ao seu próprio interesse.

Trabalhos, fadigas, sacrifícios, nada o impedia de ser útil, e isto sem ostentação, admirando-se quando se lhe atribuía por estes predicados um grande mérito. Jamais desprezou os que lhe fizeram mal; antes se dava pressa em servi-los como se bem semelhante lhe houvessem feito. Em se tratando de ingratos, dizia: Não é a mim, porém a eles que se deve lastimar. Posto que muito inteligente e dotado de natural vivacidade, teve na Terra uma vida obscura, laboriosa e bordada de rudes provações. Podia-se comparar a essas naturezas de escol que vivem na sombra, das quais o mundo não fala e cujo brilho não se reflete na Terra. Haurira no conhecimento do Espiritismo uma fé ardente na vida futura e uma grande resignação para todos os males da existência terrena. Finalmente, faleceu em dezembro de 1862, na idade de 50 anos, de moléstia atroz, sendo o seu passamento muito sensível à família e aos amigos. Evocamo-lo alguns meses depois do trespasse.

— P. Tendes uma recordação nítida dos últimos instantes da vida na Terra?

— R. Perfeitamente, conquanto essa recordação reaparecesse gradualmente. No instante preciso do desprendimento eram confusas as minhas idéias.

— P. Quereríeis, a bem da nossa instrução e do interesse que nos mereceis pela vossa vida exemplar, descrever como ocorreu o vosso trespasse da vida corporal para a espiritual?

— R. “De bom grado, tanto mais quanto a narrativa não aproveitará somente a vós, mas a mim próprio, por isso que, dirigindo o meu pensamento para a Terra, a comparação faz-me apreciar melhor a bondade do Criador. Sabeis que de tribulações provei na vida; entretanto, jamais me faltou coragem na adversidade, graças a Deus! E hoje, felicito-me! E ainda tremo ao pensar que tudo quanto sofri se anularia caso desfalecesse, tendo de recomeçar novamente as provações! Oh! meus amigos, compenetrai-vos firmemente desta verdade, pois nela reside a felicidade do vosso futuro. Não é, por certo, comprar muito caro essa felicidade por alguns anos de sofrimento! Ah! Se soubésseis o que são alguns anos comparados ao infinito! Se de fato a minha última existência teve algum mérito aos vossos olhos, outro tanto não diríeis das que a precederam. E não foi senão à força de trabalho sobre mim mesmo, que me tornei o que ora sou. Para apagar os últimos traços das faltas anteriores, era-me preciso sofrer as últimas provas que voluntariamente aceitei. Foi na firmeza das minhas resoluções que escudei a resignação, a fim de sofrer sem me queixar. Hoje abençôo essas provações, pois a elas devo o ter rompido com o passado — simples recordação agora que me permite contemplar com legítima alegria o caminho percorrido.

Oh! vós que me fizestes padecer na Terra; que fostes cruéis e malévolos para comigo, que me humilhastes e afligistes; vós, cuja má-fé tantas vezes me acarretou duras privações, não somente vos perdôo mas até vos agradeço. Intentando fazer mal, não suspeitáveis do bem que esse mal me proporcionaria. É verdade, portanto, que a vós devo grande parte da felicidade de que gozo, uma vez que me facultastes ocasião para perdoar e pagar o mal com o bem. Deus colocou-vos em meu caminho para aferir a minha paciência, exercitando-me igualmente na prática da mais difícil caridade: a de amar os inimigos.

Não vos impacienteis com esta divagação, porquanto vou responder agora à vossa pergunta. Conquanto sofresse cruelmente com a moléstia que me acometeu, quase não tive agonia: a morte sobreveio-me como um sono, sem lutas nem abalos. Sem temor pelo futuro, não me apeguei à vida e não tive, por conseguinte, de me debater nos últimos momentos. A separação completou-se sem dor, nem esforço, sem que eu mesmo de tal me apercebesse. Ignoro que tempo durou o sono, que foi curto aliás. Meu calmo despertar contrastava com o estado precedente: não sentia mais dores e exultava de alegria; queria erguer-me, caminhar, mas um torpor nada desagradável, antes deleitoso, me prendia, e eu me abandonava a ele prazerosamente, sem compreender a minha situação, conquanto não duvidasse ter já deixado a Terra. Tudo que me cercava era como se fora um sonho. Vi minha mulher e alguns amigos ajoelhados no meu quarto, chorando, e considerei de mim para mim que me julgavam morto. Quis então desenganá-los de tal idéia, mas não pude articular uma palavra, e daí concluí que sonhava. O fato de me ver cercado de pessoas caras, de há muito falecidas, e ainda de outras que à primeira vista não podia reconhecer, fortalecia em mim essa idéia de um sonho, em que tais seres por mim velassem.

Esse estado foi alternado de momentos de lucidez e de sonolência, durante os quais eu recobrava e perdia a consciência do meu “eu”.

Pouco a pouco as minhas idéias adquiriram mais lucidez, a luz que entrevia, por denso nevoeiro, fez-se brilhante; e eu comecei a compreender-me, a reconhecer-me, compreendendo e reconhecendo que não mais pertencia a esse mundo. Certamente, se eu não conhecesse o Espiritismo, a ilusão perduraria por muito mais tempo. O meu invólucro material não estava ainda inumado e eu o olhava com piedade, felicitando-me pela separação, pela liberdade. Pois se eu era tão feliz por me haver enfim desembaraçado! Respirava livremente como quem sai de uma atmosfera nauseante; indizível sensação de bem-estar penetrava todo o meu ser, a presença dos que amara alegrava-me sem me surpreender, antes parecendo-me natural, como se os encontrasse depois de longa viagem. Uma coisa me admirou logo: o compreendermo-nos sem articular uma palavra! Os nossos pensamentos transmitiam-se pelo olhar somente, como que por efeito de uma penetração fluídica.

Eu não estava, no entanto, completamente livre das preocupações terrenas, e, como para realçar mais a nova situação, a lembrança do que padecera me ocorria de vez em quando à memória.

Sofrera corporal e moralmente, sobretudo moralmente, como alvo que fui da maledicência, dessas infinitas preocupações mais acerbas talvez que as desgraças reais, quando degeneraram em perpétua ansiedade.

E ainda bem não se desvaneciam tais impressões, já eu interrogava a mim mesmo se de fato delas me libertara, parecendo-me ouvir ainda umas tantas vozes desagradáveis.

Reconsiderando as dificuldades que tanto e tantas vezes me atormentavam, tremia; e procurava, por assim dizer, reconhecer-me, assegurar-me que tudo aquilo não passava de fantástico sonho. E quando cheguei à conclusão, à realidade dessa nova situação, foi como se me aliviasse de um peso enorme.

É bem verdade, dizia, que estou isento desses cuidados que fazem o tormento da vida! Graças a Deus! Também o pobre, repentinamente enriquecido, duvida da realidade da sua fortuna e alimenta por algum tempo as apreensões da pobreza. Assim era eu.

Ah! pudessem os homens compreender a vida futura, e que força, que coragem esta convicção não lhes daria na adversidade.

Quem deixaria então, na Terra, de prover e assegurar-se da felicidade que Deus reserva aos filhos dóceis e submissos? Gozos ambicionados, invejados, tornar-se-iam mesquinhos em relação aos que eles desprezam!”

Extraído da obra “O Céu e o Inferno (ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo)”, de Allan Kardec. Versão encontrada no site Domínio Público.

*** 

Mais:                                                                            

**Seção Estudos (publicada às quartas-feiras)

**Para baixar “O Céu e o Inferno” gratuitamente e sem infringir leis de direitos autorais clique aqui (site Domínio Público).

**Para conhecer as Obras Básicas da Doutrina Espírita clique aqui.

**As Obras Básicas da Doutrina Espírita– download gratuito .

M. P…, de Moscou, era um médico tão eminente pelo saber como pelas qualidades morais. Quem o evocou apenas o conhecia por tradição, não havendo tido com ele relações sequer indiretas. A original comunicação foi dada em idioma russo.

— P. (Depois da evocação.) Estais presente? — R. Sim. No dia da minha morte vos persegui com a minha presença, e resististes às tentativas que fiz para escreverdes. As palavras, que a meu respeito dissestes, deram ocasião a que vos reconhecesse, e daí o desejo de me entreter convosco para vosso benefício.

— P. Bom como éreis, por que sofrestes tanto?

— R. Porque ao Senhor aprouve fazer-me sentir duplamente por esse meio o preço da minha libertação, querendo ao mesmo tempo que na Terra progredisse o mais possível.

— P. A idéia da morte causou-vos terror?

 — R. Tinha bastante fé em Deus para que tal não sucedesse.

— P. O desprendimento foi doloroso?

— R. Não. Isso que denominais últimos momentos, nada é. Eu apenas senti um rápido abalo, para encontrar-me logo feliz, inteiramente desembaraçado da mísera carcaça.

— P. E que sucedeu depois?

— R. Tive o prazer de ver aproximarem-se inúmeros amigos, notadamente os que tive a satisfação de ajudar, dando-me todos as boas-vindas.

— P. Que regiões habitais? Acaso algum planeta?

— R. Tudo que não seja planeta, constitui o que chamais Espaço e é neste que permaneço. O homem não pode, contudo, calcular, fazer uma idéia, sequer, do número de gradações desta imensidade. Que infinidade de escalas nesta escada de Jacob que vai da Terra ao Céu, isto é, do aviltamento da encarnação em mundo inferior, como esse, até à depuração completa da alma! Ao lugar em que ora me encontro não se chega senão depois de uma série enorme de provas, ou, por outra, de encarnações.

— P. Logo, deveis ter tido muitas existências?

— R. Nem podia ser de outra maneira. Nada há excepcional na ordem imutável do Universo, estabelecida por Deus. A recompensa só pode vir depois da luta vencida: assim, se grande for aquela é que também esta o foi e necessariamente. Mas a vida humana é tão curta que a luta apenas se trava por intervalos, que são as diferentes e sucessivas encarnações. É fácil, pois, concluir que, estando eu num dos graus elevados, o atingi depois de uma série de combates, nos quais Deus me permitiu saísse vitorioso algumas vezes.

— P. Em que consiste a vossa felicidade?

— R. Isso é mais difícil de vos fazer compreender. Essa ventura que gozo é uma espécie de contentamento extremo de mim mesmo, não pelos meus merecimentos — o que seria orgulho — e este é predicado de Espíritos atrasados — mas contentamento como que saturado, imerso no amor de Deus, no reconhecimento da sua infinita bondade. Em suma, é a alegria que nos infunde o bem, podendo supor-se ter a seu arbítrio contribuído para o progresso de outros, que se elevaram até o Criador. Ficamos como que identificados com esse bem-estar, que é uma espécie de fusão do Espírito com a bondade divina. Temos o dom de ver os Espíritos mais adiantados, de compreender-lhes a missão, de saber que também nós a tanto chegaremos; no infinito incomensurável, entrevemos as regiões em que rútilo esplende o fogo divino, a ponto de deslumbrar-nos, mesmo através do véu que as envolve.

Mas, que digo? Compreendeis as minhas palavras?

Acreditais ser esse fogo, a que me refiro, comparável ao Sol, por exemplo? Não, nunca. É uma coisa indizível ao homem, uma vez que as palavras só exprimem para ele coisas físicas ou metafísicas que conhece de memória ou intuitivamente.

Desde que o homem não pode guardar na memória o que absolutamente desconhece, como insinuar-se-lhe a percepção? Ficai porém ciente de que é já uma grande ventura o pensar na possibilidade de progredir infinitamente.

— P. Tivestes a bondade de exprimir o desejo de me ser útil: peço-vos me digais em quê. — R. Posso ajudar-vos e amparar nos desfalecimentos, fortalecer nos momentos de desânimo, consolar nos de aflição. Se a vossa fé se abalar e qualquer comoção vos perturbar, evocai-me, porque Deus me permitirá vo-lo fazer lembrado, atraindo-vos para Ele.

Se vos sentirdes prestes a sucumbir ao peso das más tendências, que a própria consciência acuse de culposas, chamai-me ainda, porque eu vos ajudarei a carregar a vossa cruz, tal como a Jesus ajudaram a carregar aquela donde tão solenemente deveria proclamar a verdade, a caridade.

Se vacilardes ao peso dos próprios dissabores, quando o desespero de vós se apodere, ainda uma vez chamai-me para que venha arrancar-vos do abismo, falando-vos espiritualmente, lembrando deveres impostos, não por considerações sociais ou materiais, mas pelo amor que vos transfundirei na alma, amor por Deus a mim concedido em favor dos que por ele podem salvar-se.

Certo, na Terra tendes amigos, os quais, compartilhando das vossas angústias, talvez já vos tenham salvo. Em momentos aflitivos tratais de procurar esses amigos, que dão conselhos, apoio, carícias… Pois bem: ficai certo de que no Espaço também podeis ter amigos, úteis e prestantes.

É uma consolação poder-se dizer: Quando eu morrer, enquanto à cabeceira do leito os amigos da Terra chorarem e pedirem, os do Espaço, no limiar da vida, irão sorridentes conduzir-me ao lugar adequado aos meus méritos e virtudes.

— P. Por que faço jus a essa proteção que quereis dispensar-me?

 — R. Eis a razão: A vós me afeiçoei logo no dia da minha morte: — é que, como Espírito, vos vi do Espiritismo adepto sincero e bom médium. E como dentre tantos que aí deixei fostes vós que vi primeiramente, logo me propus contribuir para o vosso progresso. O proveito não é apenas vosso, mas também dos que deveis instruir no conhecimento da verdade.

Na vossa missão podeis ver uma prova eloqüente do amor de Deus para convosco. Os que a vós se chegarem, pouco a pouco se tornarão crentes, e aos mais refratários, em vos ouvindo, também chegará, embora mais tarde, a vez de crer. Desanimar, nunca; caminhar sempre, apesar dos pedregulhos. Tomai-me por apoio nos momentos de desânimo.

— P. Não me julgo digno de tão grande favor.

— R. Mas por certo que bem longe estais da perfeição. Não obstante o vosso ardor na prática das sãs doutrinas; o cuidado em manter a fé dos que vos ouvem; em aconselhar a caridade, a bondade e a benevolência, mesmo para os que convosco mal se conduzem; a resistência aos instintos de cólera, que aliás facilmente poderíeis descarregar nos que vos afligem, por ignorantes das vossas intenções; tudo isso atenua a maldade que ainda possuís. Convém que o diga: o perdão das ofensas é, de tantas, uma das mais poderosas atenuantes do mal. Deus vos cumula de graças pela faculdade que vos concedeu, e que deveis desenvolver pelo esforço próprio, a fim de cooperardes na salvação do próximo. Vou deixar-vos, porém contai sempre comigo. Preciso se faz modereis as idéias terrenas, vivendo o mais possível com os amigos do Espaço.

Extraído da obra “O Céu e o Inferno (ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo)”, de Allan Kardec. Versão encontrada no site Domínio Público.

*** 

Mais:                                                                            

**Seção Estudos (publicada às quartas-feiras)

**Para baixar “O Céu e o Inferno” gratuitamente e sem infringir leis de direitos autorais clique aqui (site Domínio Público).

**Para conhecer as Obras Básicas da Doutrina Espírita clique aqui.

**As Obras Básicas da Doutrina Espírita– download gratuito .

 

Bela, jovem, rica e de estirpe ilustre, esta era também perfeito modelo de qualidades intelectuais e morais. Faleceu com 36 anos de idade, em 1851. Seu necrológio é daqueles que podem resumir-se nestas palavras por mil bocas repetidas: — “Por que tão cedo retira Deus tais pessoas da Terra?” Felizes os que assim fazem abençoada a sua memória. Ela era boa, meiga e indulgente, sempre pronta a desculpar ou atenuar o mal, em lugar de aumentá-lo. Jamais a maledicência lhe conspurcara os lábios. Sem arrogância nem austeridade, era, ao contrário, com benevolência e delicada familiaridade que tratava os fâmulos, despercebida, ao demais, de quaisquer aparências de superioridade ou de humilhante proteção. Compreendendo que pessoas que vivem do trabalho não são rendeiros e que, conseguintemente, têm precisão do que se lhes deve, já pela sua condição, já para se manterem, jamais reteve o pagamento de um salário. A simples idéia de que alguém pudesse experimentar uma privação, por sua causa, ser-lhe-ia um remorso de consciência. Ela não pertencia ao número dos que sempre encontram dinheiro para satisfazer os seus caprichos, sem pagarem as próprias dívidas; não podia compreender que houvesse prazer para o rico em ter dívidas, e humilhada se julgaria se lhe dissessem que os seus fornecedores eram constrangidos a fazer-lhe adiantamentos. Também por ocasião da sua morte só houve pesares, nem uma reclamação.

A sua beneficência era inesgotável, mas não essa beneficência ostentosa à luz meridiana; e assim exercia a caridade de coração, que não por amor de vanglórias. Só Deus sabe as lágrimas que ela enxugou, os desesperos que acalmou, pois tais virtudes só tinham por testemunhas os infelizes que assistia. Ela timbrava, além disso, em descobrir os mais pungentes infortúnios, os secretos, socorrendo-os com aquela delicadeza que eleva o moral em vez de o rebaixar.

Da sua estirpe e das altas funções do marido decorriam-lhe onerosos encargos domésticos, aos quais não podia eximir-se; satisfazendo plenamente às exigências de sua posição, sem avareza, ela o fazia, contudo, com tal método, evitando desperdícios e superfluidades, que metade lhe bastava do que a outrem fora preciso para tanto.

E desse modo se permitia facultar da sua fortuna maior quinhão aos necessitados. Destinando a renda de uma parte dessa fortuna exclusivamente a tal fim, considerava-a sagrada e como de menos a despender no serviço da sua casa. E assim encontrara meios de conciliar os seus deveres para com a sociedade e para com os infortúnios. Um dos seus parentes, iniciado no Espiritismo, evocou-a doze anos depois de falecida, e obteve, em resposta a diversas perguntas, a seguinte comunicação:

“Tendes razão, amigo, em pensar que sou feliz. Assim é, efetivamente, e mais ainda do que a linguagem pode exprimir, conquanto longe do seu último grau. Mas eu estive na Terra entre os felizes, pois não me lembro de haver aí experimentado um só desgosto real. Juventude, homenagens, saúde, fortuna, tudo o que entre vós outros constitui felicidade eu possuía! O que é, no entanto, essa felicidade comparada à que desfruto aqui? Esplêndidas festas terrenas em que se ostentam os mais ricos paramentos, o que são elas comparadas a estas assembléias de Espíritos resplendentes de brilho que as vossas vistas não suportariam, brilho que é o apanágio da sua pureza? Os vossos palácios de dourados salões, que são eles comparados a estas moradas aéreas, vastas regiões do Espaço matizadas de cores que obumbrariam o arco-íris? Os vossos passeios, a contados passos nos parques, a que se reduzem, comparados aos percursos da imensidade, mais céleres que o raio?

“Horizontes nebulosos e limitados, que são, comparados ao espetáculo de mundos a moverem-se no Universo infinito ao influxo do Altíssimo? E como são monótonos os vossos concertos mais harmoniosos em relação à suave melodia que faz vibrar os fluidos do éter e todas as fibras dalma!

E como são tristes e insípidas as vossas maiores alegrias comparadas à sensação inefável de felicidade que nos satura todo o ser como um eflúvio benéfico, sem mescla de inquietação, de apreensão, de sofrimento?! Aqui, tudo ressumbra amor, confiança, sinceridade: por toda parte corações amantes, amigos por toda parte!

“Nem invejosos, nem ciumentos! É este o mundo em que me encontro, meu amigo, e ao qual chegareis infalivelmente, se seguirdes o reto caminho da vida.

“A felicidade uniforme fatigaria, no entanto, e assim não acrediteis que a nossa seja extreme de peripécias: nem concerto perene, nem festa interminável, nem beatífica contemplação por toda a eternidade, porém o movimento, a atividade, a vida.

“As ocupações, posto que isentas de fadiga, revestem-se de perspectivas e emoções variáveis e incessantes, pelos mil incidentes que se lhes filiam. Tem cada qual sua missão a cumprir, seus protegidos a velar, amigos terrenos a visitar, mecanismos na Natureza a dirigir, almas sofredoras a consolar; e é o vaivém, não de uma rua a outra, porém, de um a outro mundo; reunindo-nos, separando-nos para novamente nos juntarmos; e, reunidos em certo ponto, comunicamo-nos o trabalho realizado, felicitando-nos pelos êxitos obtidos; ajustamo-nos, mutuamente nos assistimos nos casos difíceis. Finalmente, asseguro-vos que ninguém tem tempo para enfadar-se, por um segundo que seja. Presentemente, a Terra é o magno assunto das nossas cogitações. Que movimento entre os Espíritos! Que numerosas falanges aí afluem, a fim de lhe auxiliarem o progresso e a evolução! Dir-se-ia uma nuvem de trabalhadores a destrinçarem uma floresta, sob as ordens de chefes experimentados; abatem uns os troncos seculares, arrancam-lhes as raízes profundas, desbastam outros o terreno; amanham estes a terra, semeando; edificam aqueles a nova cidade sobre as ruínas carunchosas de um velho mundo. Neste comenos reúnem-se os chefes em conferência e transmitem suas ordens por mensageiros, em todas as direções. A Terra deve regenerar-se, em dado tempo — pois importa que os desígnios da Providência se realizem, e, assim, tem cada qual o seu papel. Não me julgueis simples expectadora desta grande empresa, o que me envergonharia, uma vez que todos nela trabalham. Importante missão me é afeta, e grandemente me esforço por cumpri-la, o melhor possível. Não foi sem luta que alcancei a posição que ora ocupo na vida espiritual; e ficai certo de que a minha última existência, por mais meritória que porventura vos pareça, não era por si só e a tanto suficiente. Em várias existências passei por provas de trabalho e miséria que voluntariamente havia escolhido para fortalecer e depurar o meu Espírito; dessas provas tive a dita de triunfar, vindo a faltar no entanto uma, porventura de todas a mais perigosa: a da fortuna e bem-estar materiais, um bem-estar sem sombras de desgosto. Nessa consistia o perigo. E antes de o tentar, eu quis sentir-me assaz forte para não sucumbir. Deus, tendo em vista as minhas boas intenções, concedeu-me a graça do seu auxílio. Muitos Espíritos há que, seduzidos por aparências, pressurosos escolhem essa prova, mas, fracos para afrontar-lhe os perigos, deixam que as seduções do mundo triunfem da sua inexperiência.

“Trabalhadores! estou nas vossas fileiras: eu, a dama nobre, ganhei como vós o pão com o suor do meu rosto; saturei-me de privações, sofri reveses e foi isso que me retemperou as forças da alma; do contrário eu teria falido na última prova, o que me teria deixado para trás, na minha carreira.

“Como eu, também vós tereis a vossa prova da riqueza, mas não vos apresseis em pedi-la muito cedo. E vós outros, ricos, tende sempre em mente que a verdadeira fortuna, a fortuna imorredoura, não existe na Terra; procurai antes saber o preço pelo qual podeis alcançar os benefícios do Todo Poderoso.

Paula, na Terra Condessa de ***.”

Extraído da obra “O Céu e o Inferno (ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo)”, de Allan Kardec. Versão encontrada no site Domínio Público.

*** 

Mais:                                                                            

**Seção Estudos (publicada às quartas-feiras)

**Para baixar “O Céu e o Inferno” gratuitamente e sem infringir leis de direitos autorais clique aqui (site Domínio Público).

**Para conhecer as Obras Básicas da Doutrina Espírita clique aqui.

Segundo o Espiritismo, nem anjos nem demônios são entidades distintas, por isso que a criação de seres inteligentes é uma só. Unidos a corpos materiais, esses seres constituem a Humanidade que povoa a Terra e as outras esferas habitadas; uma vez libertos do corpo material, constituem o mundo espiritual ou dos Espíritos, que povoam os Espaços. Deus criou-os perfectíveis e deu-lhes por escopo a perfeição, com a felicidade que dela decorre. Não lhes deu, contudo, a perfeição, pois quis que a obtivessem por seu próprio esforço, a fim de que também e realmente lhes pertencesse o mérito. Desde o momento da sua criação que os seres progridem, quer encarnados, quer no estado espiritual.  Atingido o apogeu, tornam-se puros espíritos ou anjos segundo a expressão vulgar, de sorte que, a partir do embrião do ser inteligente até ao anjo, há uma cadeia na qual cada um dos elos assinala um grau de progresso.

Do expresso resulta que há Espíritos em todos os graus de adiantamento, moral e intelectual, conforme a posição em que se acham, na imensa escala do progresso.

Em todos os graus existe, portanto, ignorância e saber, bondade e maldade. Nas classes inferiores destacam-se Espíritos ainda profundamente propensos ao mal e comprazendo-se com o mal. A estes pode-se denominar demônios, pois são capazes de todos os malefícios aos ditos atribuídos. O Espiritismo não lhes dá tal nome por se prender ele à idéia de uma criação distinta do gênero humano, como seres de natureza essencialmente perversa, votados ao mal eternamente e incapazes de qualquer progresso para o bem.

Segundo a doutrina da Igreja os demônios foram criados bons e tornaram-se maus por sua desobediência: são anjos colocados primitivamente por Deus no ápice da escala, tendo dela decaído. Segundo o Espiritismo os demônios são Espíritos imperfeitos, suscetíveis de regeneração e que, colocados na base da escala, hão de nela graduar-se. Os que por apatia, negligência, obstinação ou má vontade persistem em ficar, por mais tempo, nas classes inferiores, sofrem as conseqüências dessa atitude, e o hábito do mal dificulta-lhes a regeneração. Chega-lhes, porém, um dia a fadiga dessa vida penosa e das suas respectivas conseqüências; eles comparam a sua situação à dos bons Espíritos e compreendem que o seu interesse está no bem, procurando então melhorarem-se, mas por ato de espontânea vontade, sem que haja nisso o mínimo constrangimento.

“Submetidos à lei geral do progresso, em virtude da sua aptidão para o mesmo, não progridem, ainda assim, contra a vontade.” Deus fornece-lhes constantemente os meios, porém, com a faculdade de aceitá-los ou recusá-los. Se o progresso fosse obrigatório não haveria mérito, e Deus quer que todos tenhamos o mérito de nossas obras. Ninguém é colocado em primeiro lugar por privilégio; mas o primeiro lugar a todos é franqueado à custa do esforço próprio.

Os anjos mais elevados conquistaram a sua graduação, passando, como os demais, pela rota comum.

Chegados a certo grau de pureza, os Espíritos têm missões adequadas ao seu progresso; preenchem assim todas as funções atribuídas aos anjos de diferentes categorias.

E como Deus criou de toda a eternidade, segue-se que de toda a eternidade houve número suficiente para satisfazer às necessidades do governo universal. Deste modo uma só espécie de seres inteligentes, submetida à lei de progresso, satisfaz todos os fins da Criação.

Por fim, a unidade da Criação, aliada à idéia de uma origem comum, tendo o mesmo ponto de partida e trajetória, elevando-se pelo próprio mérito, corresponde melhor à justiça de Deus do que a criação de espécies diferentes, mais ou menos favorecidas de dotes naturais, que seriam outros tantos privilégios.

A doutrina vulgar sobre a natureza dos anjos, dos demônios e das almas, não admitindo a lei do progresso, mas vendo todavia seres de diversos graus, concluiu que seriam produto de outras tantas criações especiais. E assim foi que chegou a fazer de Deus um pai parcial, tudo concedendo a alguns de seus filhos, e a outros impondo o mais rude trabalho. Não admira que por muito tempo os homens achassem justificação para tais preferências, quando eles próprios delas usavam em relação aos filhos, estabelecendo direitos de primogenitura e outros privilégios de nascimento. Podiam tais homens acreditar que andavam mais errados que Deus?

Hoje, porém, alargou-se o circulo das idéias: o homem vê mais claro e tem noções mais precisas de justiça; desejando-a para si e nem sempre encontrando-a na Terra, ele quer pelo menos encontrá-la mais perfeita no Céu.

E aqui está por que lhe repugna à razão toda e qualquer doutrina, na qual não resplenda a Justiça Divina na plenitude integral da sua pureza.

Extraído da obra O Céu e o Inferno (ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo), de Allan Kardec. Versão encontrada no site Domínio Público.

*** 

Mais:                                                                            

**Seção Estudos (publicada às quartas-feiras)

**Para baixar “O Céu e o Inferno” gratuitamente e sem infringir leis de direitos autorais clique aqui (site Domínio Público).

**Para conhecer as Obras Básicas da Doutrina Espírita clique aqui.

**As Obras Básicas da Doutrina Espírita– download gratuito .

As atribuições dos Espíritos são proporcionadas ao seu progresso, às luzes que possuem, às suas capacidades, experiência e grau de confiança inspirada ao Senhor soberano.

Nem favores, nem privilégios que não sejam o prêmio ao mérito; tudo é medido e pesado na balança da estrita justiça.

As missões mais importantes são confiadas somente àqueles que Deus julga capazes de as cumprir e incapazes de desfalecimento ou comprometimento. E enquanto que os mais dignos compõem o supremo conselho, sob as vistas de Deus, a chefes superiores é cometida a direção de turbilhões planetários, e a outros conferida a de mundos especiais. Vêm, depois, pela ordem de adiantamento e subordinação hierárquica, as atribuições mais restritas dos prepostos ao progresso dos povos, à proteção das famílias e indivíduos, ao impulso de cada ramo de progresso, às diversas operações da Natureza até aos mais ínfimos pormenores da Criação. Neste vasto e harmônico conjunto há ocupações para todas as capacidades, aptidões e esforços; ocupações aceitas com júbilo, solicitadas com ardor, por serem um meio de adiantamento para os Espíritos que ao progresso aspiram.

Ao lado das grandes missões confiadas aos Espíritos superiores, há outras de importância relativa em todos os graus, concedidas a Espíritos de todas as categorias, podendo afirmar-se que cada encarnado tem a sua, isto é, deveres a preencher a bem dos seus semelhantes, desde o chefe de família, a quem incumbe o progresso dos filhos, até o homem de gênio que lança às sociedades novos germens de progresso. É nessas missões secundárias que se verificam desfalecimentos, prevaricações e renúncias que prejudicam o indivíduo sem afetar o todo.

Todas as inteligências concorrem, pois, para a obra geral, qualquer que seja o grau atingido, e cada uma na medida das suas forças, seja no estado de encarnação ou no espiritual. Por toda parte a atividade, desde a base ao ápice da escala, instruindo-se, coadjuvando-se em mútuo apoio, dando-se as mãos para alcançarem o zênite.

Assim se estabelece a solidariedade entre o mundo espiritual e o corporal, ou, em outros termos, entre os homens e os Espíritos, entre os Espíritos libertos e os cativos. Assim se perpetuam e consolidam, pela purificação e continuidade de relações, as verdadeiras simpatias e nobres afeições.

Por toda parte, a vida e o movimento: nenhum canto do infinito despovoado, nenhuma região que não seja incessantemente percorrida por legiões inumeráveis de Espíritos radiantes, invisíveis aos sentidos grosseiros dos encarnados,mas cuja vista deslumbra de alegria e admiração as almas libertas da matéria. Por toda parte, enfim, há uma felicidade relativa a todos os progressos, a todos os deveres cumpridos, trazendo cada um consigo os elementos de sua felicidade, decorrente da categoria em que se coloca pelo seu adiantamento.

Das qualidades do indivíduo depende-lhe a felicidade, e não do estado material do meio em que se encontra, podendo a felicidade, portanto, existir em qualquer parte onde haja Espíritos capazes de a gozar. Nenhum lugar lhe é circunscrito e assinalado no Universo.

Onde quer que se encontrem, os Espíritos podem contemplar a majestade divina, porque Deus está em toda parte.

Entretanto, a felicidade não é pessoal: Se a possuíssemos somente em nós mesmos, sem poder reparti-la com outrem, ela seria tristemente egoísta. Também a encontramos na comunhão de idéias que une os seres simpáticos.

Os Espíritos felizes, atraindo-se pela similitude de gestos e sentimentos, formam vastos agrupamentos ou famílias homogêneas, no seio das quais cada individualidade irradia as qualidades próprias e satura-se dos eflúvios serenos e benéficos emanados do conjunto.

Extraído da obra “O Céu e o Inferno (ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo)”, de Allan Kardec. Versão encontrada no site Domínio Público.

*** 

Mais:                                                                            

**Seção Estudos (publicada às quartas-feiras)

**Para baixar “O Céu e o Inferno” gratuitamente e sem infringir leis de direitos autorais clique aqui (site Domínio Público).

**Para conhecer as Obras Básicas da Doutrina Espírita clique aqui.

O Doutor Demeure (falecido em Albi (Tarn) a 25 de janeiro de 1865) era um médico homeopata e distintíssimo. Seu caráter, tanto quanto o saber, haviam-lhe granjeado a estima e veneração dos seus concidadãos. Eram-lhe inextinguíveis a bondade e a caridade, e, a despeito da idade avançada, não se lhe conheciam fadigas, em se tratando de socorrer doentes pobres. O preço das visitas era o que menos o preocupava, e de preferência sacrificava as suas comodidades ao pobre, dizendo que os ricos, em sua falta, bem podiam recorrer a outro médico. E quantas e quantas vezes ao doente sem recursos provia do necessário às exigências materiais, no caso de serem mais úteis que o próprio medicamento.

Dele pode dizer-se que era o Cura d’Ars da Medicina. Encontrando, na Doutrina Espírita, a chave de problemas cuja solução debalde pedira à Ciência como a todas as filosofias, o Dr. Demeure abraçara com ardor essa doutrina. Pela profundeza do seu espírito investigador compreendeu-lhe subitamente todo o alcance, de maneira a tornar-se um dos seus mais solícitos propagadores.

A seguinte comunicação foi obtida em Montauban, aos 26 de janeiro, dia seguinte ao da sua desencarnação, num Centro de amigos espíritas que havia nessa cidade.

“Antoine Demeure. Não morri para vós, meus amigos, porém para aqueles que não conhecem a santa doutrina que reúne os que se amaram e tiveram na Terra os mesmos pensamentos, os mesmos sentimentos de amor e caridade.

Sou feliz e mais feliz do que esperava, gozando de uma lucidez rara entre os Espíritos, relativamente ao tempo da minha desencarnação.

“Revesti-vos de coragem, bons amigos, que eu estarei muitas vezes junto de vós, instruindo-vos em muitas coisas que ignoramos quando presos à matéria, espesso véu que é de tantas magnificências, de tantos gozos. Orai pelos que estão privados dessa felicidade, pois eles não sabem o mal que fazem a si mesmos.

“Hoje não me prolongarei, dizendo-vos somente que me não sinto de todo estranho neste mundo dos invisíveis, parecendo-me até que sempre o habitei. Aqui sou feliz em vendo os meus amigos, comunicando-me com eles sempre que o desejo.

“Não choreis, meus amigos, porque me faríeis lamentar o haver-vos conhecido. Deixai correr o tempo, e Deus vos encaminhará para esta mansão, onde nos devemos todos reunir finalmente. Boa-noite, amigos; que Deus vos conforte, ficando eu ao vosso lado. Demeure.”

Extraído da obra “O Céu e o Inferno (ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo)”, de Allan Kardec. Versão encontrada no site Domínio Público.

*** 

Mais:                                                                            

**Seção Estudos (publicada às quartas-feiras)

**Para baixar “O Céu e o Inferno” gratuitamente e sem infringir leis de direitos autorais clique aqui (site Domínio Público).

**Para conhecer as Obras Básicas da Doutrina Espírita clique aqui.

**As Obras Básicas da Doutrina Espírita– download gratuito .

A Doutrina Espírita transforma completamente a perspectiva do futuro. A vida futura deixa de ser uma hipótese para ser realidade. O estado das almas depois da morte não é mais um sistema, porém o resultado da observação. Ergueu- se o véu; o mundo espiritual aparece-nos na plenitude de sua realidade prática; não foram os homens que o descobriram pelo esforço de uma concepção engenhosa, são os próprios habitantes desse mundo que nos vêm descrever a sua situação; aí os vemos em todos os graus da escala espiritual, em todas as fases da felicidade e da desgraça, assistindo, enfim, a todas as peripécias da vida de além-túmulo.

Eis aí por que os espíritas encaram a morte calmamente e se revestem de serenidade nos seus últimos momentos sobre a Terra. Já não é só a esperança, mas a certeza que os conforta; sabem que a vida futura é a continuação da vida terrena em melhores condições e aguardam-na com a mesma confiança com que aguardariam o despontar do Sol após uma noite de tempestade. Os motivos dessa confiança decorrem, outrossim, dos fatos testemunhados e da concordância desses fatos com a lógica, com a justiça e bondade de Deus, correspondendo às íntimas aspirações da Humanidade.

Para os espíritas, a alma não é uma abstração; ela tem um corpo etéreo que a define ao pensamento, o que muito é para fixar as idéias sobre a sua individualidade, aptidões e percepções. A lembrança dos que nos são caros repousa sobre alguma coisa de real. Não se nos apresentam mais como chamas fugitivas que nada falam ao pensamento, porém sob uma forma concreta que antes no-los mostra como seres viventes. Além disso, em vez de perdidos nas profundezas do Espaço, estão ao redor de nós; o mundo corporal e o mundo espiritual identificam-se em perpétuas relações, assistindo-se mutuamente.

Não mais permissível sendo a dúvida sobre o futuro, desaparece o temor da morte; encara-se a sua aproximação a sangue-frio, como quem aguarda a libertação pela porta da vida e não do nada.

Extraído da obra “O Céu e o Inferno (ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo)”, de Allan Kardec. Versão encontrada no site Domínio Público.

*** 

Mais:

**Seção Estudos (publicada às quartas-feiras)

**Para baixar “O Céu e o Inferno” gratuitamente e sem infringir leis de direitos autorais clique aqui (site Domínio Público).

**Para conhecer as Obras Básicas da Doutrina Espírita clique aqui.

**As Obras Básicas da Doutrina Espírita– download gratuito  .

 

                        Posto nunca tivesse provado as cruciantes angústias da miséria, a Sra. B…, de Bordéus, teve uma vida de martírios físicos, em conseqüência de inumerável série de moléstias mais ou menos graves, a contar da idade de 5 meses. Vivendo 70 anos, quase que anualmente batia às portas do túmulo. Três vezes envenenada pela terapêutica de uma ciência experimental e duvidosa, em ensaios feitos sobre o seu organismo e temperamento, arruinada, ao demais, pelos remédios tanto quanto pela doença, assim viveu entregue a sofrimentos intoleráveis, que nada podia atenuar. Uma sua filha, espírita-cristã e médium pedia sempre a Deus para suavizar-lhe as cruéis provações. Foi porém aconselhada pelo seu guia a pedir simplesmente a fortaleza, a calma, a resignação para as suportar, fazendo acompanhar esse conselho das seguintes instruções:

                        “Nessa vida tudo tem sua razão de ser: não há um só dos vossos sofrimentos, que não corresponda aos sofrimentos por vós causados; não há um só dos vossos excessos que não tenha por conseqüência uma privação; não há uma só lágrima a destilar dos olhos, que não seja destinada a lavar uma falta, um crime qualquer.

                        “Suportai, portanto, com paciência e resignação as dores físicas e morais, por mais cruéis que elas se vos afigurem. Imaginai o trabalhador que, amortecidos os membros pela fadiga, prossegue no trabalho, porque tem diante de si a dourada espiga, outros tantos frutos da sua perseverança. Assim, a sorte do infeliz que sofre nesse mundo; a aspiração da felicidade, que deve constituir-se em fruto de sua paciência, torná-lo-á resistente às dores efêmeras da Humanidade. Eis o que se dá com tua mãe. Cada uma das suas dores acolhida como expiatória, corresponde à extinção de uma nódoa do passado; e quanto mais cedo as nódoas todas se extinguirem, tanto mais breve ela será feliz.

                        “A falta de resignação esteriliza o sofrimento, que, por isso mesmo, teria de ser recomeçado. Convém-lhe, pois, a coragem e a resignação, e o que se faz preciso é pedir a Deus e aos bons Espíritos que lha concedam. Tua mãe foi outrora um bom médico, vivendo num meio em que fácil se lhe tornava o bem-estar, e no qual lhe não faltaram dons nem homenagens. Sem ser filantrópico, e, por conseguinte, sem visar o alívio dos seus irmãos, mas cioso de glória e fortuna quis atingir o apogeu da Ciência, para aumentar a reputação e a clientela. E na consecução de tal propósito não havia consideração que o detivesse.

                        “Porque previa um estudo nas convulsões que investigava, sua mãe era martirizada no leito de sofrimentos, enquanto que o filho se submetia a experiências que deveriam explicar uns tantos fenômenos; aos velhos abreviava os dias e aos homens vigorosos enfraquecia com ensaios tendentes a comprovar a ação de tal ou qual medicamento. E todas essas experiências eram tentadas sem que o infeliz pacien- te delas soubesse ou sequer desconfiasse. A satisfação da cupidez e do orgulho, a sede de ouro e de renome, foram os móveis de tal conduta. Foram precisos séculos de provações terríveis para domar esse Espírito ambicioso e cheio de orgulho, até que o arrependimento iniciasse a obra de regeneração. Agora termina a reparação, visto como as provas dessa última encarnação podem dizer-se suaves relativamente às que já suportou. Coragem, pois, porque se o castigo foi longo e cruel, grande será a recompensa à resignação, à paciência, à humildade.

                        “Coragem, a todos vós que sofreis; considerai a brevidade da existência material, pensai nas alegrias eternas.

                        “Invocai a esperança, a dedicada amiga dos sofredores; a fé, sua irmã, que vos mostra o céu, onde com aquela podeis penetrar antecipadamente. Atraí também a vós esses amigos que o Senhor vos faculta, amigos que vos cercam, que vos sustentam e amam, e cuja solicitude constante vos reconduz para junto dAquele a quem haveis ofendido, transgredindo as suas leis.”

                        Depois de haver desencarnado, a Sra. B… veio dar, tanto por sua filha como na Sociedade de Paris, muitas comunicações, nas quais se refletem as qualidades mais elevadas, confirmando os seus antecedentes.

Extraído da obra “O Céu e o Inferno (ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo)”, de Allan Kardec. Versão encontrada no site Domínio Público.

*** 

Mais:

**Seção Estudos (publicada às quartas-feiras)

**Para baixar “O Céu e o Inferno” gratuitamente e sem infringir leis de direitos autorais clique aqui (site Domínio Público).

**Para conhecer as Obras Básicas da Doutrina Espírita clique aqui.

**As Obras Básicas da Doutrina Espírita– download gratuito  .

                        Era filho único e faleceu, aos dezoito anos, de uma afecção pulmonar. Inteligência rara, razão precoce, grande amor ao estudo, caráter doce, terno e simpático, possuía todas as qualidades que fazem prever brilhante futuro. Com grande êxito terminara muito cedo os primeiros estudos, matriculando-se em seguida na Escola Politécnica. A sua morte acarretou aos parentes uma dessas dores que deixam traços profundos e muitíssimo dolorosos, pois que, tendo sido sempre de natureza delicada, lhe atribuíam o fim prematuro ao trabalho de estudos a que o instigaram.

                        Exprobrando-se, então, diziam: “De que lhe serve agora tudo o que aprendeu? Melhor fora ficasse ignorante, pois a ciência não lhe era necessária para viver, e assim estaria, sem dúvida, entre nós; seria o consolo da nossa velhice.” Se conhecessem o Espiritismo, raciocinariam de outra forma. Nele encontraram, contudo, a verdadeira consolação. O ditado seguinte foi dado pelo rapaz a um dos seus amigos, meses após o decesso.

                        — P. Meu caro Maurice, a terna afeição que votáveis a vossos pais traz-me a convicção de que desejais reconfortar- lhes o ânimo, se estiver ao vosso alcance fazê-lo. O pesar, direi mesmo desespero, que o vosso passamento lhes trouxe, altera-lhes visivelmente a saúde, levando-os a desgostarem- se da vida. Algumas palavras de consolo poderão certamente fazer renascer-lhes a esperança…

                        — R. Meu amigo, esperava com impaciência esta ocasião, que ora me facultais, de comunicar-me. A dor de meus pais aflige-me, porém, ela se acalmará quando tiverem a certeza de que não estou perdido para eles; aproximai-vos deles a fim de os convencer desta verdade, o que certamente conseguireis. Era preciso este acontecimento para insinuar-lhes uma crença que lhes trará a felicidade, impedindo-os de murmurar contra os decretos da Providência. Sabeis que meu pai era muito céptico a respeito da vida futura. — Deus concedeu-lhe este desgosto para arrancá-lo do seu erro. Aqui nos reencontraremos, neste mundo onde não se conhecem desgostos da vida, e no qual os precedi; afirmai-lhes categoricamente que a ventura de tornarem a ver-me ser-lhes-á recusada como castigo à falta de confiança na bondade de Deus. Interdita me seria mesmo comunicação com eles, durante o tempo da sua permanência na Terra. O desespero é uma rebeldia à vontade do Onipotente, sempre punido com o prolongamento da causa que o produziu, até que haja completa submissão.

                        O desespero é verdadeiro suicídio por minar as forças corpóreas, e quem abrevia os seus dias, no intuito de escapar mais cedo aos travos da dor, faz jus às mais cruéis decepções; deve-se, ao contrário, avigorar o corpo a fim de suportar mais facilmente o peso das provações.

                        Meus queridos e bondosos pais, é a vós que neste momento me dirijo. Desde que deixei o despojo mortal, jamais deixei de estar ao vosso lado. Aí estou muito mais vezes mesmo que quando na Terra. Consolai-vos, pois, porque eu não estou morto, ou antes, estou mais vivo que vós. Apenas o corpo morreu, mas o Espírito, esse, vive sempre. Ele é ao demais livre, feliz, isento de moléstias, de enfermidades e de dores.

                        Em vez de vos afligirdes, regozijai-vos por saber que estou ao abrigo de cuidados e apreensões, em lugar onde o coração se satura de alegria puríssima, sem a sombra de um desgosto.

                        Meus bons amigos, não deploreis os que morrem precocemente, porque isto é uma graça que Deus lhes concede, poupando-os às tribulações da vida terrena. A minha existência aí não devia prolongar-se por muito tempo desta vez, visto ter adquirido o necessário para preencher, no Espaço, uma missão mais elevada. Se tivesse mais tempo, não imaginais a que perigos e seduções iria expor-me.

                        E podereis acaso julgar da minha fortaleza para não sucumbir nessa luta que importaria atraso de alguns séculos? Por que, pois, lastimar o que me é vantajoso?

                        Neste caso, uma dor inconsolável acusaria descrença só legitimável pela idéia do nada. Os que assim descrêem, esses é que são dignos de lástima, pois para eles não pode haver consolação possível; os entes caros figuram-se-lhes irremediavelmente perdidos, porque a tumba lhes leva a última esperança!

                        — P. Vossa morte foi dolorosa?

 

                        — R. Não, meu amigo, apenas sofri, antes da morte, os efeitos da moléstia, porém, esse sofrimento diminuía à proporção que o último instante se aproximava: depois, um dia, adormeci sem pensar na morte. E tive então um sonho delicioso! Sonhei que estava curado, que não mais sofria, e respirava a longos haustos, prazerosamente, um ar embalsamado e puro: transportava-me através do Espaço uma força desconhecida. Brilhante luz resplandecia em torno, mas sem cansar-me a vista! Vi meu avô, não mais esquálido, alquebrado, porém, com aspecto juvenil e loução. E ele estendia-me os braços, estreitando-me efusivamente ao coração.

                        Multidão de outras pessoas, de risonhos semblantes, o acompanhavam, acolhendo-me todos com benevolência e doçura; parecia-me reconhecê-los e, venturoso por tornar a vê-los, trocávamos felicitações e testemunhos de amizade. Pois bem! o que eu supunha ser um sonho era a realidade, porque de tal sonho não devia despertar na Terra: é que acordara no mundo espiritual.

                        — P. A vossa moléstia não se originou da grande assiduidade no estudo?

                        — R. Oh! não, desenganai-vos. Contado estava o tempo que eu deveria passar na Terra, e coisa alguma poderia aí reter-me. Sabia-o meu Espírito nos momentos de desprendimento e considerava-me feliz com a idéia da próxima libertação.

                        Mas, o tempo que aí passei não foi sem proveito, e hoje me felicito de o não ter perdido.

                        Os sérios estudos feitos fortificaram-me a alma, aumentando-lhe os conhecimentos, e se em virtude da minha curta existência não pude dar-lhes aplicação, nem por isso deixarei de o fazer mais tarde e com maior utilidade.

                        Adeus, caro amigo: eu parto para junto de meus pais, a fim de predispô-los ao recebimento desta comunicação.

Maurice.

Extraído da obra “O Céu e o Inferno (ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo)”, de Allan Kardec. Versão encontrada no site Domínio Público.

*** 

Mais:

**Seção Estudos (publicada às quartas-feiras)

**Para baixar “O Céu e o Inferno” gratuitamente e sem infringir leis de direitos autorais clique aqui (site Domínio Público).

**Para conhecer as Obras Básicas da Doutrina Espírita clique aqui.

**As Obras Básicas da Doutrina Espírita– download gratuito  .

                        Se Jesus ameaçou os culpados com o fogo eterno, também os ameaçou de serem lançados na Geena. Ora, que vem a ser a Geena? Nada mais nada menos que um lugar nos arredores de Jerusalém, um monturo onde se despejavam as imundícies da cidade.

                        Dever-se-ia interpretar isso também ao pé da letra? Entretanto era uma dessas figuras enérgicas de que ele se servia para impressionar as massas. O mesmo se dá com o fogo eterno. E se tal não fora o seu pensar, ele estaria em contradição, exaltando a clemência e misericórdia de Deus, pois clemência e inexorabilidade são sentimentos antagônicos que se anulam. Desconhecer-se-ia, pois, o sentido das palavras de Jesus, atribuindo-lhes a sanção do dogma das penas eternas, quando todo o seu ensino proclamou a mansidão do Criador, a sua benignidade.

                        No Pai-Nosso Jesus nos ensina a dizer: — Perdoai-nos, Senhor, as nossas faltas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores. Pois se o culpado não devesse esperar algum perdão, inútil seria pedi-lo.

                        Esse perdão é, porém, incondicional? É uma remissão pura e simples da pena em que se incorre? Não; a medida desse perdão subordina-se ao modo pelo qual se haja perdoado, o que equivale dizer que não seremos perdoados desde que não perdoemos. Deus, fazendo do esquecimento das ofensas uma condição absoluta, não podia exigir do homem fraco o que Ele, onipotente, não fizesse.

(…)

                        Para homens que só possuíam da espiritualidade da alma uma idéia confusa, o fogo material nada tinha de improcedente, mesmo porque já participava da crença pagã, quase universalmente propagada. Igualmente a eternidade das penas nada tinha que pudesse repugnar a homens desde muitos séculos submetidos à legislação do terrível Jeová. No pensamento de Jesus o fogo eterno não podia passar, portanto, de simples figura, pouco lhe importando fosse essa figura interpretada à letra, desde que ela servisse de freio às paixões humanas. Sabia ele ao demais que o tempo e o progresso se incumbiriam de explicar o sentido alegórico, mesmo porque, segundo a sua predição, o Espírito de Verdade viria esclarecer aos homens todas as coisas. O caráter essencial das penas irrevogáveis é a ineficácia do arrependimento, e Jesus nunca disse que o arrependimento não mereceria a graça do Pai.

                        Ao contrário, sempre que se lhe deparou ensejo, ele falou de um Deus clemente, misericordioso, solícito em receber o filho pródigo que voltasse ao lar paterno; inflexível, sim, para o pecador obstinado, porém, pronto sempre a trocar o castigo pelo perdão do culpado sinceramente arrependido.

                        Este não é, por certo, o traço de um Deus sem piedade. Também convém assinalar que Jesus nunca pronunciou contra quem quer que fosse, mesmo contra os maiores culpados, a condenação irremissível.

Extraído da obra “O Céu e o Inferno (ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo)”, de Allan Kardec. Versão encontrada no site Domínio Público.

***

Mais:

**Seção Estudos (publicada às quartas-feiras)

**Para baixar “O Céu e o Inferno” gratuitamente e sem infringir leis de direitos autorais clique aqui (site Domínio Público).

**Para conhecer as Obras Básicas da Doutrina Espírita clique aqui.

**As Obras Básicas da Doutrina Espírita– download gratuito  .

                        Que haja seres dotados de todas as qualidades atribuídas aos anjos, não restam dúvidas. A revelação espírita neste ponto confirma a crença de todos os povos, fazendo-nos conhecer ao mesmo tempo a origem e natureza de tais seres.

                        As almas ou Espíritos são criados simples e ignorantes, isto é, sem conhecimentos nem consciência do bem e do mal, porém, aptos para adquirir o que lhes falta. O trabalho é o meio de aquisição, e o fim — que é a perfeição — é para todos o mesmo. Conseguem-no mais ou menos prontamente em virtude do livre-arbítrio e na razão direta dos seus esforços; todos têm os mesmos degraus a franquear, o mesmo trabalho a concluir. Deus não aquinhoa melhor a uns do que a outros, porquanto é justo, e, visto serem todos seus filhos, não tem predileções. Ele lhes diz: Eis a lei que deve constituir a vossa norma de conduta; ela só pode levar-vos ao fim; tudo que lhe for conforme é o bem; tudo que lhe for contrário é o mal. Tendes inteira liberdade de observar ou infringir esta lei, e assim sereis os árbitros da vossa própria sorte. Conseguintemente, Deus não criou o mal; todas as suas leis são para o bem, e foi o homem que criou esse mal, divorciando-se dessas leis; se ele as observasse escrupulosamente, jamais se desviaria do bom caminho.

                        Entretanto, a alma, qual criança, é inexperiente nas primeiras fases da existência, e daí o ser falível. Não lhe dá Deus essa experiência, mas dá-lhe meios de adquiri-la. Assim, um passo em falso na senda do mal é um atraso para a alma, que, sofrendo-lhe as conseqüências, aprende à sua custa o que importa evitar. Deste modo, pouco a pouco, se desenvolve, aperfeiçoa e adianta na hierarquia espiritual até ao estado de puro Espírito ou anjo. Os anjos são, pois, as almas dos homens chegados ao grau de perfeição que a criatura comporta, fruindo em sua plenitude a prometida felicidade. Antes, porém, de atingir o grau supremo, gozam de felicidade relativa ao seu adiantamento, felicidade que consiste, não na ociosidade, mas nas funções que a Deus apraz confiar-lhes, e por cujo desempenho se sentem ditosas, tendo ainda nele um meio de progresso. (Vede “O Céu e o Inferno”, 1ª Parte, cap. III, “O céu”.)

                         A Humanidade não se limita à Terra; habita inúmeros mundos que no Espaço circulam; já habitou os desaparecidos, e habitará os que se formarem. Tendo-a criado de toda a eternidade, Deus jamais cessa de criá-la. Muito antes que a Terra existisse e por mais remota que a suponhamos, outros mundos havia, nos quais Espíritos encarnados percorreram as mesmas fases que ora percorrem os de mais recente formação, atingindo seu fim antes mesmo que houvéramos saído das mãos do Criador.

                        De toda a eternidade tem havido, pois, puros Espíritos ou anjos; mas, como a sua existência humana se passou num infinito passado, eis que os supomos como se tivessem sido sempre anjos de todos os tempos.

                        Realiza-se assim a grande lei de unidade da Criação; Deus nunca esteve inativo e sempre teve puros Espíritos, experimentados e esclarecidos, para transmissão de suas ordens e direção do Universo, desde o governo dos mundos até os mais ínfimos detalhes. Tampouco teve Deus necessidade de criar seres privilegiados, isentos de obrigações; todos, antigos e novos, adquiriram suas posições na luta e por mérito próprio; todos, enfim, são filhos de suas obras.

                        E, desse modo, completa-se com igualdade a soberana justiça do Criador.

Extraído da obra “O Céu e o Inferno (ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo)”, de Allan Kardec. Versão encontrada no site Domínio Público.

***

Mais:

**Seção Estudos (publicada às quartas-feiras)

**Para baixar “O Céu e o Inferno” gratuitamente e sem infringir leis de direitos autorais clique aqui (site Domínio Público).

**Para conhecer as Obras Básicas da Doutrina Espírita clique aqui.

**As Obras Básicas da Doutrina Espírita– download gratuito  .

                        Em 1850, numa vila da Baviera, morreu um velho quase centenário, conhecido por pai Max. Por não possuir família, ninguém lhe determinava a origem. Havia cerca de meio século que se invalidara para ganhar a vida, sem outro recurso além da mendicidade, que ele dissimulava, procurando vender, pelas herdades e castelos, almanaques e outras miudezas. Deram-lhe a alcunha de conde Max, e as crianças o chamavam somente pelo título — circunstância esta que o fazia rir sem agastamento. Por que esse título? Ninguém saberia dizê-lo. O hábito o sancionara. Talvez tivesse provindo da sua fisionomia, das suas maneiras, cuja distinção fazia contraste com a miserabilidade dos andrajos.

 

                        Muitos anos depois da morte, Max apareceu em sonho à filha do proprietário de um castelo em cuja estrebaria era outrora hospedado, porque não possuía domicílio próprio. Nessa aparição, disse ele: “Agradeço o terdes lembrado o pobre Max nas vossas preces, porque o Senhor as ouviu. Alma caritativa, que vos interessastes pelo pobre mendigo, já que quereis saber quem sou, vou satisfazer-vos, ministrando, ao mesmo tempo e a todos, um grande ensinamento.

 

                        “Há cerca de século e meio era eu um dos ricos e poderosos senhores desta região, porém orgulhoso da minha nobreza. A fortuna imensa, além de só me servir aos prazeres, mal chegava para o jogo, para o deboche, para as orgias, que eram a minha única preocupação na vida.

 

                        “Quanto aos vassalos, porque os julgasse animais de trabalho destinados a servir-me, eram espezinhados e oprimidos, para proverem às minhas dissipações. Surdo aos seus queixumes, como em regra também o era com todos os infelizes, julgava eu que eles ainda se deveriam ter por honrados em satisfazer-me os caprichos. Morri cedo, exausto pelos excessos, mas sem ter, de fato, experimentado qualquer desgraça real. Ao contrário, tudo parecia sorrir-me, a ponto de passar por um dos seres mais ditosos do mundo. Tive funerais suntuosos e os boêmios lamentavam a perda do ricaço, mas a verdade é que sobre o meu túmulo nenhuma lágrima se derramou, nenhuma prece por mim se fez a Deus, de coração, enquanto minha memória era amaldiçoada por todos aqueles para cuja miséria contribuíra. Ah! E como é terrível a maldição dos que prejudicamos! Pois essa maldição não deixou de ressoar-me aos ouvidos durante longos anos que me pareceram uma eternidade. Depois, por morte de cada uma das vítimas, era um novo espectro ameaçador ou sarcástico que se erguia diante de mim, a perseguir-me sem tréguas, sem que eu pudesse encontrar um vão esconso onde me furtasse às suas vistas! Nem um olhar amigo!

 

                        “Os antigos companheiros de devassidão, infelizes como eu, fugiram, parecendo dizer-me desdenhosos: “Tu não podes mais custear os nossos prazeres.” Oh! Então, quanto daria eu por um instante de repouso, por um copo dágua para saciar a sede ardente que me devorava! Entretanto eu nada mais possuía, e todo o ouro a jorros derramado sobre a Terra não produzia uma só bênção, uma só que fosse… ouviste, minha filha?!

 

                        “Cansado por fim, opresso, qual viajor que não lobriga o termo da jornada, exclamei: “Meu Deus, tende compaixão de mim! Quando terminará esta situação horrível?” Então uma voz — primeira que ouvi depois de haver deixado a Terra — disse: “Quando quiseres.” Que será preciso fazer, grande Deus? — repliquei. Dizei-o, que a tudo me sujeitarei. — “É preciso o arrependimento, é preciso te humilhares perante os mesmos a quem humilhastes; pedir-lhes que intercedam por ti, porque a prece do ofendido que perdoa é sempre agradável ao Senhor.” E eu me humilhei, e eu pedi aos meus vassalos e servidores que ali estavam diante de mim, e cujos semblantes, pouco a pouco mais benévolos, acabaram por desaparecer. Isso foi para mim como que uma nova vida; o desespero deu lugar à esperança, enquanto eu agradecia a Deus com todas as forças de minha alma.

 

                        “A voz acrescentou: “Príncipe…” ao que respondi: “Não há aqui outro príncipe senão Deus, o Deus Onipotente que humilha os soberbos. Perdoai-me Senhor, porque pequei; e se tal for da vossa vontade, fazei-me servo dos meus servos.”

 

                        “Alguns anos depois reencarnei numa família de burgueses pobres. Ainda criança perdi meus pais, e fiquei só, no mundo, desamparado. Ganhei a vida como pude, ora como operário, ora como trabalhador de campo, mas sempre honestamente, porque já cria em Deus. Mas aos 40 anos fiquei totalmente paralítico, sendo-me preciso daí por diante mendigar por mais de 50 anos, por essas mesmas terras de que fora o absoluto senhor. Nas herdades que me haviam pertencido, recebia uma migalha de pão, feliz quando por abrigo me davam o teto de uma estrebaria. Ainda por uma acerba ironia do destino, apelidaram-me Sr. Conde… Durante o sono, aprazia-me percorrer esse mesmo castelo onde reinei despoticamente, revendo-me no fausto da minha antiga fortuna! Ao despertar, sentia de tais visões uma impressão de amargura e tristeza, mas nunca uma só queixa se me escapou dos lábios; e quando a Deus aprouve chamar-me, exaltei a sua glória por me haver sustentado com firmeza e resignação numa tão penosa prova, da qual hoje recebo a recompensa. Quanto a vós, minha filha, eu vos bendigo por terdes orado por mim.”

 

 

                        Para este fato pedimos a atenção de todos quantos pretendem que, sem a perspectiva das penas eternas, os homens deixariam de ter um freio às suas paixões. Um castigo como este do pai Max será porventura menos profícuo do que essas penas sem-fim, nas quais hoje ninguém acredita?

 

 

Extraído da obra “O Céu e o Inferno (ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo)”, de Allan Kardec. Versão encontrada no site Domínio Público.

 

***

 

Mais:

espaço

**Seção Estudos (publicada às quartas-feiras)

espaço

**Para baixar “O Céu e o Inferno” gratuitamente e sem infringir leis de direitos autorais clique aqui (site Domínio Público).

espaço

**Para conhecer as Obras Básicas da Doutrina Espírita clique aqui.

espaço

**As Obras Básicas da Doutrina Espírita– download gratuito  .

(Bordéus, 19 de abril de 1862)

 

 

“Homens, meus irmãos, eu vivi só para mim e agora expio e sofro! Conceda-vos Deus a graça de evitardes os espinhos que ora me laceram. Prossegui na senda larga do Senhor e orai por mim, pois abusei dos favores que Deus faculta às suas criaturas!

 

Quem sacrifica aos instintos brutos a inteligência e os bons sentimentos que Deus lhe dá, assemelha-se ao animal que muitas vezes se maltrata. O homem deve utilizar-se sobriamente dos bens de que é depositário, habituando-se a visar a eternidade que o espera, abrindo mão, por conseqüência, dos gozos materiais. A sua alimentação deve ter por exclusivo fim a vitalidade; o luxo deve apenas restringir-se às necessidades da sua posição; os gostos, os pendores, mesmo os mais naturais, devem obedecer ao mais são raciocínio; sem o que, ele se materializa em vez de se purificar. As paixões humanas são estreitos grilhões que se enroscam na carne e, assim, não lhes deis abrigo. Vós não sabeis o seu preço, quando regressamos à pátria! As paixões humanas vos despem antes mesmo de vos deixarem, de modo a chegardes nus, completamente nus, ante o Senhor. Ah! cobri-vos de boas obras que vos ajudem a franquear o Espaço entre vós e a eternidade. Manto brilhante, elas escondem as vossas torpezas humanas. Envolvei-vos na caridade e no amor — vestes divinas que duram eternamente.”

 

Instruções do guia do médium. — Este Espírito está num bom caminho, porquanto, além do arrependimento, aduz conselhos tendentes a evitar os perigos da senda por ele trilhada.

 

Reconhecer os erros é já um mérito e um passo efetivo para o bem: também por isso, a sua situação, sem ser venturosa, deixa de ser a de um Espírito infeliz.

 

Arrependendo-se, resta-lhe a reparação de uma outra existência. Mas, antes de lá chegar, sabeis qual a existência desses homens de vida sensual que não deram ao Espírito outra atividade além da invenção de novos prazeres?

 

A influência da matéria segue-os além-túmulo, sem que a morte lhes ponha termo aos apetites que a sua vista, tão limitada como quando na Terra, procura em vão os meios de os saciar. Por não terem nunca procurado alimento espiritual, a alma erra no vácuo, sem norte, sem esperança, presa dessa ansiedade de quem não tem diante de si mais que um deserto sem limites. A inexistência das lucubrações espirituais acarreta naturalmente a nulidade do trabalho espiritual depois da morte; e porque não lhe restem meios de saciar o corpo, nada restará para satisfazer o Espírito.

 

Daí, um tédio mortal cujo termo não prevêem e ao qual prefeririam o nada. Mas o nada não existe… Puderam matar o corpo, mas não podem aniquilar o Espírito. Importa pois que vivam nessas torturas morais, até que, vencidos pelo cansaço, se decidam a volver os olhos para Deus.

 

 

Extraído da obra “O Céu e o Inferno (ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo)”, de Allan Kardec. Versão encontrada no site Domínio Público.

 

***

 

Mais:

espaço

**Seção Estudos (publicada às quartas-feiras)

espaço

**Para baixar “O Céu e o Inferno” gratuitamente e sem infringir leis de direitos autorais clique aqui (site Domínio Público).

espaço

**Para conhecer as Obras Básicas da Doutrina Espírita clique aqui.

espaço

**As Obras Básicas da Doutrina Espírita– download gratuito  .

O homem, seja qual for a escala de sua posição social, desde selvagem tem o sentimento inato do futuro; diz-lhe a intuição que a morte não é a última fase da existência e que aqueles cuja perda lamentamos não estão irremissivelmente perdidos.

 

A crença da imortalidade é intuitiva e muito mais generalizada do que a do nada. Entretanto, a maior parte dos que nela crêem apresentam-se-nos possuídos de grande amor às coisas terrenas e temerosos da morte! Por quê?

 

Este temor é um efeito da sabedoria da Providência e uma conseqüência do instinto de conservação comum a todos os viventes. Ele é necessário enquanto não se está suficientemente esclarecido sobre as condições da vida futura, como contrapeso à tendência que, sem esse freio, nos levaria a deixar prematuramente a vida e a negligenciar o trabalho terreno que deve servir ao nosso próprio adiantamento.

 

Assim é que, nos povos primitivos, o futuro é uma vaga intuição, mais tarde tornada simples esperança e, finalmente, uma certeza apenas atenuada por secreto apego à vida corporal.

 

À proporção que o homem compreende melhor a vida futura, o temor da morte diminui; uma vez esclarecida a sua missão terrena, aguarda-lhe o fim calma, resignada e serenamente. A certeza da vida futura dá-lhe outro curso às idéias, outro fito ao trabalho; antes dela nada que se não prenda ao presente; depois dela tudo pelo futuro sem desprezo do presente, porque sabe que aquele depende da boa ou da má direção deste.

 

A certeza de reencontrar seus amigos depois da morte, de reatar as relações que tivera na Terra, de não perder um só fruto do seu trabalho, de engrandecer-se incessantemente em inteligência, perfeição, dá-lhe paciência para esperar e coragem para suportar as fadigas transitórias da vida terrestre. A solidariedade entre vivos e mortos faz-lhe compreender a que deve existir na Terra, onde a fraternidade e a caridade têm desde então um fim e uma razão de ser, no presente como no futuro.

 

Para libertar-se do temor da morte é mister poder encará-la sob o seu verdadeiro ponto de vista, isto é, ter penetrado pelo pensamento no mundo espiritual, fazendo dele uma idéia tão exata quanto possível, o que denota da parte do Espírito encarnado um tal ou qual desenvolvimento e aptidão para desprender-se da matéria.

 

No Espírito atrasado a vida material prevalece sobre a espiritual. Apegando-se às aparências, o homem não distingue a vida além do corpo, esteja embora na alma a vida real; aniquilado aquele, tudo se lhe afigura perdido, desesperador.

 

Se, ao contrário, concentrarmos o pensamento, não no corpo, mas na alma, fonte da vida, ser real a tudo sobrevivente, lastimaremos menos a perda do corpo, antes fonte de misérias e dores. Para isso, porém, necessita o Espírito de uma força só adquirível na madureza.

 

O temor da morte decorre, portanto, da noção insuficiente da vida futura, embora denote também a necessidade de viver e o receio da destruição total; igualmente o estimula secreto anseio pela sobrevivência da alma, velado ainda pela incerteza.

 

Esse temor decresce, à proporção que a certeza aumenta, e desaparece quando esta é completa. Eis aí o lado providencial da questão. Ao homem não suficientemente esclarecido, cuja razão mal pudesse suportar a perspectiva muito positiva e sedutora de um futuro melhor, prudente seria não o deslumbrar com tal idéia, desde que por ela pudesse negligenciar o presente, necessário ao seu adiantamento material e intelectual.

 

 

 

Extraído da obra “O Céu e o Inferno (ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo)”, de Allan Kardec. Versão encontrada no site Domínio Público.

 

***

 

Mais:

espaço

**Seção Estudos (publicada às quartas-feiras)

espaço

**Para baixar “O Céu e o Inferno” gratuitamente e sem infringir leis de direitos autorais clique aqui (site Domínio Público).

espaço

**Para conhecer as Obras Básicas da Doutrina Espírita clique aqui.

espaço

**As Obras Básicas da Doutrina Espírita– download gratuito  .

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts.

Junte-se a 15.059 outros seguidores

Twitter:

Anúncios publicitários & Direitos autorais:

Anúncios que porventura apareçam no site são de inteira responsabilidade do Wordpress, que é o destinatário dos lucros com eles obtidos, e não têm absolutamente nenhuma relação com o conteúdo ou com os responsáveis pelo Blog Meditando.

Não temos qualquer intenção de lucro com este blog.
***
Complementando o que foi dito acima, afirmamos que o único objetivo deste blog é divulgar a Doutrina Espírita. Buscamos obedecer as leis dos homens, ato que também configura respeito a Deus.

Ao publicarmos mensagens e trechos de obras, nosso único intento é divulgar o Espiritismo,e não de distribuir livros ou qualquer material de forma ilegal. Por isso, caso o detentor dos direitos de qualquer material aqui publicado julgue que ele deve ser retirado, por gentileza contate-nos via comentário no blog e o faremos prontamente. Repetimos, respeitamos as leis dos homens e os direitos alheios, como modo de respeito a Deus.
***
E, mais uma vez, agradecemos a sua companhia! Sejam bem-vindos!

Estamos à disposição!

Para contatar-nos, deixe um comentário no blog. Este blog não mais possui endereço de e-mail ativo para contato, apesar de ainda constar tal informação em algumas postagens antigas.

Seja bem-vindo!

IP Address Lookup

Blog Meditando no Twitter

Meditando em outros idiomas:

Chico Xavier:

Meditando ao redor do mundo

Mensagens espíritas aleatórias:

Pesquisar

RSS Mais artigos espíritas:

  • Ocorreu um erro. É provável que o feed esteja indisponível. Tente mais tarde.

Atualizações deste blog no Twitter@alunosdeKardec

Seções

Baú de Meditações

Nossos arquivos:

junho 2017
D S T Q Q S S
« maio    
 123
45678910
11121314151617
18192021222324
252627282930  

Agradecemos a sua visita!

Divulgue a Doutrina Espírita

%d blogueiros gostam disto: